Dez anos após a inauguração, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte segue cercada por críticas sociais e ambientais. Comunidades do Rio Xingu, no Pará, afirmam que ainda aguardam reparações pelos impactos causados pela obra, que alterou profundamente modos de vida, economia local e o equilíbrio ambiental da região.
A construção da hidrelétrica, planejada desde a década de 1970 e concretizada em 2016, é considerada um marco da geração de energia no Brasil. Com capacidade instalada superior a 11 mil megawatts, Belo Monte se tornou a maior usina 100% brasileira. No entanto, o avanço energético veio acompanhado de mudanças drásticas no território.
Moradores relatam perdas irreversíveis. O pescador Élio Alves da Silva, de 70 anos, lembra que antes da obra o Rio Xingu era abundante em peixes e garantia sustento às famílias. Com o desvio de grande parte do fluxo do rio, espécies desapareceram e comunidades inteiras foram deslocadas. Segundo ele, promessas de reassentamento coletivo e apoio produtivo não foram cumpridas.
A transformação também atingiu quem permaneceu na região. Famílias que dependiam da pesca passaram a enfrentar dificuldades para garantir alimentação e renda. A redução da oferta de peixes impactou diretamente a segurança alimentar, obrigando moradores a substituir uma dieta tradicional por alimentos industrializados e de menor valor nutricional.
Além dos impactos sociais, organizações denunciam violações de direitos humanos e ambientais. Entidades nacionais e internacionais apontam que o empreendimento agravou problemas estruturais e aumentou a vulnerabilidade das populações diante de eventos climáticos extremos, como as secas registradas na Amazônia nos últimos anos.
O debate ganhou dimensão internacional. Um parecer recente da Corte Interamericana de Direitos Humanos reforçou a obrigação dos países em proteger comunidades afetadas pelas mudanças climáticas. O documento fortalece ações que responsabilizam o Estado brasileiro por danos causados durante a construção da usina.
Para especialistas e organizações sociais, Belo Monte se tornou um símbolo de contradição: ao mesmo tempo em que é apresentada como fonte de energia limpa, também é apontada como exemplo de projeto que teria causado danos socioambientais significativos.
A concessionária responsável pela usina destaca investimentos bilionários em ações socioambientais, incluindo hospitais, escolas e programas voltados às comunidades indígenas. Ainda assim, moradores e entidades afirmam que as medidas foram insuficientes para compensar as perdas e reconstruir os modos de vida afetados.
Uma década depois, Belo Monte permanece no centro de um debate que vai além da geração de energia. O caso levanta questionamentos sobre desenvolvimento, sustentabilidade e o equilíbrio entre grandes obras e os direitos das populações tradicionais — tema cada vez mais relevante no cenário atual de transição energética.
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Fonte: News Rondônia