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Projeto do SUS combate isolamento de pacientes com lobomicose na Amazônia

O seringueiro Augusto Bezerra da Silva, de 65 anos, viveu décadas em isolamento voluntário no interior do Acre devido ao estigma de uma doença rara. Diagnosticado com a Doença de Jorge Lobo (DJL), ou lobomicose, ele viu surgirem no rosto e corpo lesões nodulares semelhantes a queloides que causavam dor, coceira e vergonha. “Você se coloca isolado com a idade de 20 anos, até perto dos 65. Não é fácil”, relatou Augusto, que agora celebra a melhora do quadro graças ao projeto Aptra Lobo.
A enfermidade, endêmica da Amazônia Ocidental, atinge principalmente populações em situação de vulnerabilidade, como seringueiros, ribeirinhos e povos indígenas. Atualmente, o Ministério da Saúde registra 907 casos da doença no Brasil, sendo que mais da metade (496) estão localizados no Acre. Por se tratar de uma infecção fúngica que deforma a pele, o impacto psicológico é profundo, levando muitos pacientes a abandonarem o convívio comunitário e familiar.
Estrutura de tratamento e resultados
Para enfrentar o histórico de negligência, o Ministério da Saúde criou o projeto Aptra Lobo, em parceria com o Hospital Israelita Albert Einstein, por meio do Proadi-SUS. A iniciativa acompanha 104 pacientes nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia, estruturando o manejo clínico no Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento utiliza o antifúngico itraconazol, com doses ajustadas, e já apresenta resultados promissores: mais de 50% dos participantes registraram melhora significativa das lesões.
Além da medicação, o projeto realiza biópsias, exames laboratoriais e cirurgias para retirada de lesões em áreas remotas. Centros de referência em Porto Velho, Rio Branco e Manaus servem como base para o acompanhamento trimestral. O infectologista João Nobrega de Almeida Júnior, do Einstein, explica que o acesso geográfico é a maior barreira. “Há ajuda de custos de transporte e expedições para alcançar aqueles que moram em regiões mais remotas”, afirmou o médico.
Novo protocolo e fim da negligência
Em dezembro passado, o projeto lançou um manual prático para auxiliar profissionais de saúde no diagnóstico e prevenção da lobomicose. O objetivo é que, ainda em 2026, os dados coletados pelo acompanhamento dos pacientes sirvam de base para a criação de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) definitivo. O documento deve padronizar o fluxo de atendimento em toda a rede pública, garantindo que a doença deixe de ser considerada negligenciada pelas autoridades.
Para seu Augusto, o tratamento representou um “livramento”. Com a redução dos nódulos no rosto, ele retomou o contato com a família e o prazer de sair de casa. Embora o tratamento ainda seja contínuo, o seringueiro afirma sentir-se mais liberto. O legado do projeto Aptra Lobo pretende garantir que futuros pacientes não precisem passar pelo mesmo isolamento social, promovendo a detecção precoce e o acolhimento humanizado nas comunidades isoladas da floresta.
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Fonte: News Rondônia

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