MONTEZUMA CRUZ – Mulher determinada, dona Gilsa Auvray Guedes esteve ao lado do ex-governador Humberto da Silva Guedes desde o início, no enfrentamento dos desafios do extinto Território Federal de Rondônia. Nascida no Rio de Janeiro, ela criou 12 filhos. Dedicou-se a obras sociais e liderou pessoalmente a retirada de famílias de áreas alagadas às margens do Rio Madeira, em seguida assentadas no Bairro Meu Pedacinho de Chão, por ela própria criado.
Dona Gilsa: determinação e solidariedade com flagelados do Madeira (Foto Acervo Sejucel, modificada)
Entre 1975 e 1977, a esposa do coronel do Exército Guedes tomava conhecimento e convivia com o maior fenômeno climático até então, a cheia do rio. Enquanto o marido se dedicava a missões administrativas, dona Gilsa trouxe para si a pobreza. Guedes faleceu em 18 de junho passado, aos 103 anos; dona Gilsa, em 3 de agosto de 2007, aos 81.
O INCRA e o Ministério do Interior colaboravam com o trabalho governamental, movidos pela realidade do futuro estado amazônico ocidental: a marca dolorosa da escassez de recursos facilmente notada no território rico em minérios e com grande perspectiva agrícola.
O fluxo migratório quase incontrolável rumo à Amazônia Brasileira acelerava a instalação do Estado de Rondônia. Era tempo de vacinação contra febre amarela e do alto consumo de remédios à base de quinino para o controle da malária que até hoje não tem vacina.
Porto Velho ultrapassava a marca de cem mil habitantes. Ao lado direito da Avenida Kennedy (depois denominada Jorge Teixeira), a mata cobria áreas repletas de ranchos de pau a pique, onde mais tarde surgiriam a Nova Porto Velho e o bairro Agenor de Carvalho.
Governador Humberto Guedes em uma das fotos mais notáveis do período 1976-1977: a construção de Ariquemes (Foto Acervo Sejucel)
Socorro e apoio a flagelados do Madeira
Famílias desembarcadas para fazer a ficha pessoal no Centro de Triagem de Migrantes em Vilhena, a 704 quilômetros de Porto Velho, tinham diferentes destinos, inclusive a Capital que já não dava conta de tantos problemas de saúde.
Dona Gilsa Guedes, que andava sem seguranças, convocava seus voluntários e abraçava a causa social mais emergente naquele período: remanejar para um lugar seguro famílias ilhadas que já não possuíam camas, mesas, cadeiras, nem a botija de gás procedente de Manaus.
Quando o Rio Madeira transbordou, em 1977, dona Gilsa estacionava o carro na Avenida Farquhar e caminhava a pé até o porto Cai N’Água, de onde saía de canoa com dois remadores, para visitas diárias aos bairros Triângulo e Baixa da União.
Ali mesmo ela fazia a triagem das famílias dispostas ao remanejamento para o Meu Pedacinho de Chão, onde quis o destino, até crianças adotou. Na história rondoniense ela foi a única “primeira-dama” a tomar tal decisão, comovida pela situação de penúria vivida pelos sem-teto.
Assentada lembra o primeiro emprego
Em 2019, Ecila Farias Capistrano, hoje com 78 anos, relatava ao repórter ter sido uma das beneficiadas pelas ações de dona Gilsa: contou que fora assentada num lote no Pedacinho de Chão. “Ganhei dela até a madeira para construir minha casinha.”
Acreana de Tarauacá e recém-chegada de Rio Branco com seis filhos para criar em Porto Velho estava carente de tudo. “Eu conheci essa santa mulher quando prestava auxílio voluntário a outras mães no lanche diário do Jardim de Infância Casa de Davi. Ali ela me incentivou a aprender a assinar meu nome, e assim passei a trabalhar para o Governo do Território”, ela me contava em 2019.
Com Roberto Carlos
O jornalista Ciro Pinheiro lembra: “Ela não andava com seguranças. O cantor Roberto Carlos estava em Porto Velho para um show no Estádio Aluízio Ferreira e dona Gilsa pediu minha companhia para ir até o Hotel Shelton (ao lado do ex- Hotel Vila Rica), a fim de lhe reivindicar um show beneficente para suas campanhas. O cantor deu toda atenção e garantiu que agendaria um show, de graça.”
“Fiz foto dela com o cantor e em seguida ele pediu minha máquina e entregou a um assessor para que eu, também, saísse nas fotos. Poucos dias depois o governador Guedes foi substituído e não houve o show prometido. Era assim a senhora Gilsa Guedes, esposa de um dos melhores, mais competentes e corretos governadores que Rondônia já teve”, acrescenta Ciro Pinheiro.
Retratos da migração: casais aguardam na fila a vez para o casamento em frente ao cartório de Pimenta Bueno (Foto Kim-Ir-Sen Pires Leal)
Obras concluídas
Fundador da Polícia Militar de Rondônia, cujo quartel general construiu e deixou para seu sucessor inaugurar, o ex-governador Humberto Guedes deixou prontas: a sede do Instituto Médico-Legal, o primeiro prédio do Tribunal de Contas, e reestruturou a segurança pública. Reformou o Palácio das Secretarias (antigo Porto Velho Hotel) em Porto Velho; iniciou as obras da Esplanada das Secretarias, no Bairro Pedrinhas; construiu o prédio do Fórum Rui Barbosa, primeira sede do futuro Tribunal de Justiça e concluiu o projeto da hidrelétrica de Samuel – a primeira.
“Minha mãe foi uma mulher de opinião forte e decidida, sempre trabalhou para o próximo”, conta a filha Beatriz Guedes Neves lembrando o voluntariado de dona Gilsa em várias frentes sociais.
“Amor ao próximo foi sua motivação. Desde que eu era criança acompanhei sua dedicação ao ajudar as pessoas em creches, orfanatos e lar de idosos”, diz Beatriz.
Sempre atuanteSegundo a filha, dona Gilsa “fez uma grande diferença” no Hospital São José, onde transformou a Pediatra e Hidratação em um lar para crianças desnutridas, com malária, pneumonia e outras doenças. “Depois de curadas, elas não queriam ir embora, isso foi muito gratificante.”Ainda a filha Beatriz: “Ela era uma mulher forte, determinada e sem medo de falar a verdade. O novo bairro se chamou Meu Pedacinho Chão, porque ela gostava muito de uma novela de tevê com esse nome, naquela época.”
Realmente tinha tudo a ver, pois aquelas pessoas foram tiradas de uma grande área alagada. “Fui lá várias vezes, com ela”, lembra Beatriz.
“A gente ia na canoa para fazer os registros das famílias, e o interessante é que, conforme a água subia, o acesso ao piso ficava difícil; em alguns momentos tínhamos dificuldade para entrar na casa, pois o piso estava quase junto ao telhado”, descreve a filha.
Beatriz lembra que o novo bairro povoado por ex-flagelados contou com o apoio do Governo do Território e muitas ações de arrecadação em almoços e festas.
E assim, dona Gilsa conseguiu construir uma escola que colocou o nome de Brasília; um jardim de Infância denominado Casa de Davi; uma Igreja onde a filha se casou; e uma creche que entregou para as Irmãs Marcelinas.
“Ela continuou a cuidar do bairro, para que as pessoas não vendessem as casas e voltassem para o alagado. Minha mãe tinha uma visão muito diferente da pobreza: dizia que ser pobre não quer dizer que seja humilde, pois conheceu pessoas ricas mais simples do que alguns pobres”, acrescenta Beatriz.
Prédio original do Tribunal de Contas foi construído pelo ex-governador (Foto Acervo TCE)
Reconhecimento oficial
“Ele desempenhou papel fundamental na construção das bases que contribuíram para a futura transformação de Rondônia em estado”, reconhece o Governo Estadual em nota de pesar pelo falecimento do ex-governador Humberto Guedes.
“Sua gestão deixou marcas relevantes na história rondoniense, especialmente pelo compromisso com o desenvolvimento e pela busca de soluções para os desafios enfrentados por uma região em pleno processo de crescimento”, assinala a nota.
No campo político, Guedes começou e terminou seu período insatisfeito com duas oposições: a do MDB, natural e aceitável já no período do Presidente da República, general Ernesto Geisel, e a do próprio Diretório Regional da Aliança Renovadora Nacional (Arena), esta, questionável.
Nas eleições de 1976, o ex-governador Guedes perderia o controle das duas únicas câmaras municipais no Território: em Guajará-Mirim (fronteira fluvial Brasil-Bolívia) e Porto Velho. O MDB elegia a maioria nas duas casas legislativas.
Mesmo assim, ele seguia sua programação de visitas às vilas, dando especial atenção aos projetos do INCRA: o Iata, no município de Guajará-Mirim, e Ouro Preto, onde cresceu o município de Ouro Preto do Oeste.
O aspecto fundiário, sob a jurisdição do INCRA, fez parte dos desafios a Guedes, mesmo com a liberação dos primeiros recursos do Programa de Polos Agropecuários e Agrominerais da Amazônia (Amazônia). Em consequência do inchaço dos projetos (em Colorado do Oeste, Ji-Paraná e Rolim de Moura), faltava o essencial: educação, saúde, segurança e transportes nos aglomerados humanos que dariam origem a novos municípios.
Em 1978, Rondônia elegeria pela primeira vez dois deputados federais. Guedes se esforçou durante 20 dias de campanha para levar a Brasília o ex-funcionário do Banco do Brasil, advogado acreano Isaac Newton Pessoa, cuja base eleitoral era Guajará-Mirim. Outro acreano, advogado Odacir Soares, ex-prefeito da Capital, por ele exonerado em seu primeiro ato no governo, em 1975, presidia o diretório regional da Arena.
Odacir montava uma chapa composta por ele, o vereador João Bento da Costa, Isaac Newton Pessoa e o professor Francisco Teixeira. Com isso, prejudicava a formação de outra chapa formada pelo coronel do Exército Carlos Augusto Godoy, médico Leônidas Rachid e agrônomo Assis Canuto.
“Guedes achava que essa chapa seria vencedora e cederia a quarta vaga para Odacir, que era presidente da Arena e figurava na outra chapa”, conta o economista e comunicador Eudes Lustosa, no governo seguinte assumiria por um período a Casa Civil.
“Convencional com nove votos, eu tinha esses dez votos, atendi o apelo do coronel Guedes e votamos na chapa que ele apoiava. No dia da convenção, a chapa do Odacir ganhou por 21 a 10. Os dez que eu prometi ao governador eram dos convencionais de Guajará-Mirim e os 21 votos vencedores eram os que Odacir dominava na convenção”, acrescenta.
Guedes trabalhou a favor de Isaac, com apoio do INCRA. De todos os órgãos federais, o INCRA detinha o maior orçamento, superando o próprio governo. “Isaac Newton era um funcionário semi-gago. As chances de ser eleito eram tantas quanto à de um elefante passar num buraco de fechadura, mas o governador, conforme se falava abertamente àquela altura teria recebido determinação de participar do processo eleitoral, mesmo contra a sua vontade”, relata o jornalista Lúcio Albuquerque.
Apelo por estradas
Em 21 de julho de 1978 Guedes opinava ao Conselho de Segurança Nacional que INCRA precisa melhorar estradas. A produção agrícola não escoava, o prejuízo e a malária levavam à falência milhares de assentados em projetos, cuja coordenadoria regional, durante seu governo, fora ocupada pelo amazonense Bernardo Martins Lindoso, irmão do então influente senador José Lindoso (Arena-AM).
Sobravam críticas do então deputado federal Jerônimo Santana (MDB-RO), que, entre cobranças, se insurgia contra o INCRA, cobrando da Polícia Federal resultados de um inquérito que apurava a venda ilegal de terras devolutas por funcionários da autarquia em Pimenta Bueno.
Em 29/11/78 o extinto jornal “A Tribuna” publicava: “INCRA toma terras de colonos para negociá-las”. O processo INCRA/BR/5.139/75 apurava irregularidades no Projeto Fundiário de Rondônia e totalizava mais de quinhentas páginas, em três volumes. Ainda assim, alguns envolvidos seguiam trabalhando sem serem incomodados.
Em 1985, já sob o Governo Jorge Teixeira, Rondônia alcançava seu primeiro milhão de habitantes e atualmente sua população supera 1,7 milhão. Foi considerado o estado que mais crescia no País, com taxas superiores à média nacional e sua base econômica se destacando cada vez mais.
Inegável, conforme descrições nos dois capítulos anteriores desta reportagem, o papel de Humberto Guedes na edificação do novo estado brasileiro.
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Fonte: Tribuna Popular