Um estudo de longo prazo realizado em Querência, no Mato Grosso região historicamente impactada pelo desmatamento, trouxe novas perspectivas sobre a capacidade de regeneração da Amazônia. Após 22 anos de monitoramento, pesquisadores descartaram a tese da savanização, que previa a substituição da floresta por gramíneas e arbustos. No lugar de uma savana, os cientistas observaram que a própria floresta retoma os espaços afetados por queimadas e secas intensas, mantendo sua identidade original.
O biólogo Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale com apoio do Instituto Serrapilheira, avalia que a floresta demonstra uma resiliência inesperada. No entanto, ele ressalta que essa recuperação não ocorre de forma isolada. Para que a vegetação nativa retorne, é indispensável interromper os ciclos de incêndios e garantir a preservação de remanescentes florestais próximos, que funcionam como fontes de sementes dispersadas pelo vento e por animais.
Impactos do fogo e a retomada do dossel
A pesquisa teve início em 2004 em uma área de 150 hectares, dividida para testar diferentes frequências de queimadas. Inicialmente, o cenário foi de empobrecimento severo, com a riqueza de espécies caindo até 46,2% nas áreas mais atingidas. Contudo, após o encerramento das queimadas experimentais em 2010, a floresta iniciou um processo de fechamento do dossel (a cobertura das copas), reduzindo a presença de gramíneas invasoras de 100% para apenas 10% em áreas recentes.
Apesar da aparência de floresta, a composição atual ainda não é idêntica à original. O estudo aponta que a biodiversidade recuperada varia entre 31,3% e 50,8% do que existia antes dos distúrbios. Além disso, a nova vegetação apresenta características que a tornam mais vulnerável, como árvores de casca fina e madeira de baixa densidade, que possuem menor resistência a novos episódios de fogo ou tempestades severas.
Do Arco do Desmatamento ao Arco da Restauração
A vulnerabilidade da floresta em regeneração é agravada pelas mudanças climáticas, que trazem secas cada vez mais extremas. Embora as espécies consigam manter a hidratação durante a retomada, os cientistas alertam que a restauração de áreas degradadas em larga escala é fundamental para garantir a manutenção dos ciclos de água na região. O estudo fortalece a ideia de que a Amazônia pode se curar se houver manejo adequado e proteção rigorosa.
O pesquisador Leandro Maracahipes destaca que a região, antes estigmatizada como parte do “Arco do Desmatamento”, agora pode ser vista sob a ótica do “Arco da Restauração”. Essa mudança de paradigma aproveita a capacidade natural de regeneração da floresta para reverter danos históricos. A conclusão do estudo em Querência oferece um modelo de esperança para políticas de conservação que priorizem a sucessão natural aliada ao fim das atividades predatórias.
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Fonte: News Rondônia