As grandes cidades brasileiras e globais precisam superar a desconexão com o meio ambiente e incorporar a floresta ao planejamento urbano contemporâneo. Esta foi a tônica do 3ª Seminário Internacional Transmutar, realizado no último final de semana pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Durante o evento, pesquisadores e ativistas debateram formas de transformar os centros urbanos em organismos resilientes e inteligentes, inspirando-se tanto na biologia vegetal quanto no urbanismo ancestral.
O conceito de fitópolis
O neurobiólogo italiano Stefano Mancuso apresentou o conceito de “fitópolis” cidades projetadas com uma cobertura vegetal mínima de 60%. Para o pesquisador, a evolução urbana não deve priorizar apenas o bem-estar humano através de estruturas arquitetônicas tradicionais, mas sim promover uma interação orgânica com o meio ambiente. Mancuso defende a substituição de pelo menos 20% do asfalto por áreas arborizadas e a integração das plantas dentro das edificações. O objetivo é que as metrópoles operem como sistemas adaptáveis capazes de mitigar os efeitos do aquecimento global.
Lições do passado
O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves resgatou exemplos de urbanismo indígena na Amazônia, onde cidades jardins prosperaram há mais de mil anos sem excluir a natureza do cotidiano. “A principal lição desse urbanismo antigo é que ele não coloca a natureza para fora. A gente tem que trazer a floresta de volta”, afirmou Neves. O especialista criticou a lógica atual de ocupação urbana, que frequentemente resulta na degradação de recursos hídricos e na desigualdade no acesso a áreas verdes, privilegiando apenas bairros de alta renda.
Transfluências e o legado de Nêgo Bispo
A programação do evento, integrada à 22ª Semana do Meio Ambiente do Inhotim, teve como tema “Transfluências”, uma homenagem ao pensamento do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo. O conceito de transfluência propõe que as ações humanas e dos seres não humanos são circulares e que a relação com a natureza deve ser pautada pelo afeto e pelo cuidado. “A gente tem que pensar a natureza como o lugar do afeto, do cuidado, do se relacionar”, pontuou Joana Maria, líder quilombola e filha de Nêgo Bispo.
Ciência e desenvolvimento
O evento também contou com reflexões sobre a complexidade da coexistência entre tecnologia e meio ambiente. Para a gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta, é fundamental aprender a conviver com a combinação entre o orgânico e o inorgânico, ressaltando que a sabedoria reside na gestão dessa complexidade. Complementarmente, a bióloga Sue Anne Costa defendeu um “re-encantamento” das decisões públicas, argumentando que a lógica estritamente produtiva e financeira deve dar lugar a perspectivas que valorizem o território e o sagrado, assim como faziam os povos ancestrais.
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Fonte: News Rondônia