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Colunas O Dia na História Rondônia

AS (muitas) VEZES QUE NÃO MORREMOS (IX) – Histórias do jornalismo em Rondônia

4 minutos de leitura

Personagem: MARINDIA MOURA ()
Era uma pauta da TV-Rondônia, das tantas de cobertura de operações contra crimes ambientais em Rondônia, mas nela vivi uma das experiências mais assustadoras da minha vida. A imensidão da floresta, com suas unidades de conservação, parques e áreas de desmatamento, sempre reservou desafios para quem trabalha com jornalismo. Na ocasião, o desafio foi muito além de registrar imagens.
Comigo o cinegrafista Clenio Amorim, em um helicóptero com uma equipe do Ibama, para produzir imagens aéreas que mostrassem a dimensão do desmatamento na região próxima a Ariquemes. Na época, ainda não tínhamos drones à disposição. Daí ser essencial o helicóptero para conseguir imagens mais amplas e mostrar ao público o tamanho do problema.

Maríndia: oração silenciosa para agradecer pelo pouso em pleno temporal Passamos o dia inteiro trabalhando. Registramos o material e, no fim da tarde, nos preparamos para voltar a Porto Velho. O tempo já estava fechado quando decolamos, mas não imaginávamos o que viria pela frente.

Pouco depois de levantarmos voo, a chuva caiu com força. Era uma tempestade daquelas que parecem não ter fim. Do lado de fora, não conseguíamos enxergar absolutamente nada. A água cobria a paisagem, e a visibilidade era praticamente zero.

Dentro do helicóptero, o silêncio era assustador.

Éramos seis pessoas: eu, o Clenio, o piloto, o copiloto e mais dois, se não me falha a memória, agentes da Polícia Federal. Ninguém falava. Parecíamos presos à mesma apreensão, tentando entender o que aconteceria em seguida.

Os pilotos conversavam, mas, mesmo sem participar da conversa, nós ouvíamos os comentários. A situação estava complicada. Não havia condições de continuar o voo. Precisávamos pousar.

Foram minutos intermináveis. O medo crescia a cada instante, enquanto aguardávamos uma decisão que nos tirasse daquela situação.

Até que o piloto encontrou um local para pousar às margens da BR-364, próximo à entrada de Cujubim. Havia um pequeno espaço entre a rodovia e a vegetação. Foi ali que descemos, em meio à chuva intensa.

Durante a aproximação, ainda conseguíamos ver os carros passando pela rodovia. Alguns motoristas olhavam assustados para o helicóptero, talvez se perguntando o que aquela aeronave fazia ali, tentando pousar em meio à tempestade.

Nós também devíamos estar com uma expressão parecida.

Graças à habilidade do piloto, chegamos ao chão em segurança. Mas o pouso não significou que o perigo havia passado. A chuva continuava tão forte que não podíamos sair do helicóptero. Ficamos ali, esperando, ainda presos àquela tensão.

Aos poucos, a chuva foi diminuindo. E, com ela, o medo também começou a ceder. Respirávamos mais tranquilos, tentando assimilar o que tinha acabado de acontecer.

Clenio: fazendo a “dança da chuva” ao botar os pés no chão Quando saímos do helicóptero o Clenio, ao pôr pés no chão começou a bater os pés, como quem precisava confirmar que estava mesmo em terra firme.

— Ah, eu estou pisando no chão! Graças a Deus, estou pisando no chão!

A cena ficou gravada em minha memória. Depois de tantos minutos sem saber o que aconteceria, sentir o chão sob os pés parecia a melhor coisa do mundo.

Aquela foi uma das ocasiões em que senti que poderia não voltar para casa. Era uma reportagem para registrar imagens e mostrar à população a dimensão dos crimes ambientais, mas, por alguns instantes, a notícia que quase tivemos de contar era a nossa própria história.

O jornalismo nos leva a lugares que poucos conhecem e nos coloca diante de situações que nem sempre conseguimos prever. Com o tempo, aprendemos a conviver com os riscos, mas isso não significa que deixamos de sentir medo.

Naquele dia, entre a floresta, a tempestade e o silêncio no helicóptero, aprendi mais uma vez o valor de algo que muitas vezes parece simples: estar vivo, pisar em terra firme e ter a chance de voltar para casa.

E, enquanto Clenio comemorava cada passo no chão, eu agradecia em silêncio. Porque, naquela viagem, o registro mais marcante não ficou nas imagens da floresta, mas na lembrança do momento em que acreditamos que poderíamos não sobreviver. () Marindia Moura, jornalista, atual gerente de comunicação do MPRO


Fonte: Tribuna Popular