Personagem: LENILSON GUEDES, jornalista () Em 1990, na campanha de Oswaldo Piana ao Governo de Rondônia, viajávamos pelo interior, num “GOL” daqueles “quadrados”, quatro companheiros: o advogado Dilson Machado, ao volante; Laércio, chefe de gabinete do então deputado Piana; Elvestre Lyman Johnson, jornalista; e eu, Lenilson Guedes, radialista e mestre de cerimônias.
A cada comício, a cada reunião do candidato com os moradores das cidades visitadas, celebrávamos o cumprimento da jornada com alguns goles de cerveja. Todos participavam da pequena confraternização, afinal, a estrada era longa, os compromissos eram muitos e a amizade tornava a caminhada mais leve.
Naquela época, viajar de um município a outro era uma verdadeira aventura. De Buritis a Rolim de Moura e de lá até Colorado do Oeste, o que encontrávamos não eram exatamente estradas, mas caminhos que cortavam a imensidão de Rondônia. Passávamos por fazendas, sítios, plantações e lugares onde a natureza ainda reinava soberana, guardando mistérios que a nossa curiosidade, às vezes, preferia não desvendar.
Naquela viagem, por volta da meia-noite, paramos junto a uma plantação para o que, na linguagem popular, chamamos de “aliviar o joelho”.
Corria a história — ou seria estória? — que os indígenas daquela região além de caçarem onças, não gostavam muito de visitantes inesperados. Diziam até que recebiam os indesejáveis à moda antiga: com flechas. E nós, naturalmente, não estávamos dispostos a conferir se a fama tinha fundamento.
Descemos do velho “Gol” quadrado e nos afastamos um pouco para cumprir nossa missão. Tudo parecia tranquilo, até que, de repente, ouvimos vozes e percebemos movimentos em um milharal ali perto. O barulho vinha da escuridão, e a imaginação, nessas horas, trabalha muito mais depressa do que a razão.
Não quisemos saber se era gente, indígena ou onça. O medo falou mais alto, e os quatro tentamos entrar no carro praticamente ao mesmo tempo!
Elvestre foi tão ligeiro que parecia um leopardo fugindo da própria sombra. Eu não fiquei muito atrás, mas, na pressa, quase deixei o joelho do lado de fora. Entrei, é verdade, porém com tanta descoordenação que, até hoje, quando me lembro daquela noite, parece que o joelho volta a doer.
Dilson e Laércio também não ficaram para trás. Cada um encontrou seu jeito de vencer a porta, o banco e o próprio desespero. O importante era entrar. A dignidade, naquele instante, podia esperar do lado de fora.
Como todos da “velha guarda” do jornalismo o Lenilson tem muito a contar
Quando finalmente estávamos todos a bordo, Dilson acelerou como se o velho “Gol” tivesse acabado de receber asas. O carro disparou estrada afora numa velocidade tão impressionante que, como nos desenhos animados, parecia deixar até a sombra para trás.
E lá fomos nós, noite adentro, tentando recuperar o fôlego, a coragem e, quem sabe, a compostura. Nunca soubemos o que realmente se mexia naquele milharal. Talvez fossem apenas animais, talvez pessoas, talvez somente a noite pregando uma peça em quatro viajantes cansados. Mas, uma coisa é certa: naquela madrugada, a imaginação nos fez correr mais do que qualquer treinamento físico seria capaz de conseguir.
Nas linhas vicinais e nas rodovias principais eram comuns os atoleiros
Hoje, quando volto a essa lembrança, percebo que o tempo transforma o medo em riso e a aventura em saudade. A estrada já não é a mesma, os anos passaram, e cada um de nós seguiu seu caminho. Ficaram, porém, as histórias, os companheiros e aqueles instantes que a memória se recusa a abandonar.
E, se algum dia me perguntarem o que aconteceu naquela noite, talvez eu responda apenas: “Quando morri, esqueci de dizer que foi de susto. E, se não morri naquela madrugada, foi porque o velho Gol correu mais depressa do que a nossa imaginação!” () Lenilson Guedes, jornalista, paraibano, há mais de 40 anos atuando em Rondônia
Fonte: Tribuna Popular
