Personagem: ALICE THOMAZ, jornalista () Não tenho nenhuma história drástica para relatar do tipo “As muitas vezes que não morremos”, mas fazendo uma varredura na memória, lembrei de um fato um pouco. Porto Velho viveu momentos de terror com gangues formadas por jovens. As ocorrências policiais eram frequentes. Dentre elas, eram famosas a Gangue do Brinco e a Gangue do Gato, que tocavam o terror na capital rondoniense perto do final da década de 1980.
Pelo “Alto Madeira” Alice “cobriu” o julgamento da gangue “do Gato”
Pesquisando no Google não há praticamente nada sobre essa turma, uma pena. Mas o caso é o seguinte. Em 1987 houve um caso de estupro aqui na cidade que mobilizou parte da sociedade, uma vez que a vítima era filha de uma família bem conhecida. Um casal de namorados estava no Parque Circuito quando foi rendido por membros da Gangue do Gato. Os delinquentes abusaram da moça, e o namorado teve que assistir tudo sem poder reagir. O caso, como era de se esperar, virou Boletim de Ocorrência, Inquérito Policial e foi parar, se não me engano, na 1ª Vara Criminal no Fórum Fouad Darwich.
Eu atuava na Editoria Geral do jornal impresso Alto Madeira. Em duas ou três páginas, nossa equipe cobria diariamente o noticiário da cidade. E dava repercussão a outros fatos que já não eram manchetes, mas que continuavam despertando o interesse dos leitores. Talvez por ser a única repórter do sexo feminino na redação naquele momento, acabei ficando com a pauta. E fui dando andamento, informando ao leitor sobre o caso. O Alto Madeira tinha por política editorial repercutir notícias de interesse popular por um período mais extenso, penso que diferente dos outros diários, que ficavam só nas manchetes iniciais.
Estava eu grávida, há poucos meses de ser mãe. A barriga crescendo sem parar e naquele dia uma das minhas missões era ir ao Cartório onde tramitava o processo e saber das novidades. Alguns serventuários já me conheciam de vista e de certa forma até o juiz, hoje desembargador aposentado, Valter Oliveira, também já me vira por lá.
Delegado Munhoz comandou o combate às gangues
Pois bem, encostei no balcão enquanto aguardava uma brechinha para falar com alguém. Lá também estavam outras pessoas interessadas no mesmo processo. Eu não tinha muita experiência e nem a malícia dos repórteres mais antigos. De repente fui abordada por uma senhora que, usando uma linguagem bem popular, me acochou ali naquele estreito corredor que separava o balcão de atendimento da parede divisória. Só então fiquei sabendo que era parte das pessoas interessadas no processo – se não me engano era a mãe da moça, vítima da guangue e ela me ameaçou gravemente, dizendo que eu não poderia divulgar nenhuma linha daquele processo. Confesso que tremi na base. Já tinha ouvido falar que aquela senhora tinha uma personalidade, digamos assim, um tanto sanguinária e ela estava batalhando, da forma que podia e entendia ser justa para que os acusados que molestaram e agrediram sua filha não escapassem da justiça, como em casos anteriores.
Fiquei minúscula. Empalideci. Sai do Cartório apavorada. Na redação relatei ao meu chefe, então o Ivan Marrocos, que não ia mais fazer matéria sobre o assunto. Meu medo tinha fundamento. Estava sozinha e de certa forma fragilizada pela gestação. Durante um certo tempo as ameaças daquela senhora perseguiram a minha mente. Nunca pude declarar a ela que o propósito do jornal não era expor sua filha, pelo contrário, assim como ela, também queríamos que a justiça fosse feita e que aqueles delinquentes fossem severamente punidos para que não voltassem a fazer novas vítimas.
O caso continuou na justiça. Não lembro se os envolvidos foram devidamente sentenciados, mas a partir dali também houve uma redução nos casos da gangue, então liderada por Roberval, o Gato. Não lembrava o nome dele, mas hoje, recorrendo a alguns colegas me disseram que este era o nome de batismo do perigoso.
Mais tarde soube-se que Roberval estava morando no interior de São Paulo, sendo inclusive motorista em uma família e era responsável por conduzir crianças para a escola e outras atividades. Posteriormente chegou a notícia de sua morte, que também não foi muito esclarecedora. A gangue, pelo menos aquela, acabou. E como a maioria dos membros eram menores, não tiveram comprometimento em suas fichas. Outro detalhe é que alguns deles eram filhos de comerciantes influentes na capital e isso também pode ter contribuído para que seus nomes fossem esquecidos pela crônica policial. Que tenham aprendido a lição. () Alice Thomaz, carioca de nascimento e porto-velhense de coração, jornalista aposentada e sempre pronta para aprender novas lições.
Fonte: Tribuna Popular
