Coluna Ponto Crítico – Por Felipe Corona
Proximidade entre prefeito e sistema de controle amplia a crise de credibilidade da gestão de Porto Velho
Rolos
O maior problema da gestão Léo Moraes (Podemos) não é apenas a sucessão de polêmicas administrativas que marcaram seu governo. O problema é a crescente percepção de concentração de poder em torno de um mesmo núcleo político e familiar.
Não é ilegal
Enquanto a prefeitura enfrenta críticas, controvérsias e questionamentos sobre sua condução administrativa, a esposa do prefeito, Érika Patrícia Saldanha de Oliveira, ocupa posição de destaque no Ministério Público de Contas de Rondônia. A situação pode não representar qualquer irregularidade legal, mas produz um desgaste político inevitável.
Pão e circo
A Tecnogame que foi um evento de dois dias que custou mais de R$ 2 milhões aos cofres públicos foi um exemplo claro, de como o Tribunal de Contas de Rondônia e o Ministério Público Estadual estão distante dos anseios da população. Sobram eventos em Porto Velho e faltam obras públicas sociais impactantes. Os cofres da gestão municipal parece que estão sendo esvaziados.
Estranho
Quando o chefe do Executivo municipal está no centro das decisões mais importantes da capital e sua esposa ocupa um cargo relevante em uma instituição ligada ao sistema de fiscalização das contas públicas, surge um ambiente permanente de desconfiança. A população passa a questionar se existe distância suficiente entre quem governa e quem fiscaliza.
Estranho 2
O resultado é devastador para a credibilidade institucional. Cada novo escândalo, cada denúncia, cada controvérsia administrativa deixa de ser analisada apenas pelos fatos e passa a ser observada sob a ótica das relações de poder existentes nos bastidores. O debate deixa de ser jurídico e se torna político.
“Artista”
A gestão Léo Moraes construiu uma forte estratégia de comunicação baseada na imagem pessoal do prefeito. O problema é que a exposição constante gera também maior cobrança pública. Quanto mais a administração centraliza sua narrativa em uma única liderança, maior se torna a responsabilidade política por cada crise enfrentada pela prefeitura.
Expectativa
O cidadão espera que órgãos de controle atuem com independência absoluta. Também espera que os governantes mantenham uma distância institucional capaz de evitar qualquer dúvida sobre favorecimentos, privilégios ou proteções políticas.
Realidade
A crise que ronda a prefeitura de Porto Velho não é apenas administrativa. É uma crise de confiança. E quando a confiança começa a desaparecer, nenhum marketing, nenhuma campanha de imagem e nenhuma estratégia digital conseguem substituir a credibilidade perdida.
Crise meia-boca
A Prefeitura de Porto Velho parece ter descoberto uma modalidade bastante peculiar de austeridade: aquela que funciona dependendo da finalidade da despesa. Quando o assunto é corte, contenção ou dificuldade para manter determinados serviços públicos, entra em cena o discurso da crise financeira.
Crise meia-boca 2
Mas, quando aparecem eventos, patrocínios, comunicação e projetos capazes de produzir generosos minutos de exposição, eis que o cofre municipal demonstra uma surpreendente capacidade de recuperação. Dinheiro, aparentemente, não desaparece. Apenas escolhe onde quer aparecer.
900 milhas
O exemplo mais recente é o patrocínio de R$ 900 mil destinado pela Prefeitura à Fundação Rede Amazônica para execução do projeto “Consciência Limpa – Educação, Sustentabilidade e Cidadania”. O Contrato nº 069/2026/PGM, vinculado ao Processo Administrativo nº 006.002960/2025-11, foi celebrado por inexigibilidade de licitação. Os recursos sairão da Secretaria de Governo e têm origem em receitas não vinculadas de impostos municipais.
900 milhas 2
A Nota de Empenho nº 4.328/2026 já reservou os R$ 900 mil. Ou seja: para determinadas despesas, a crise recomenda prudência. Para essa, o orçamento encontrou quase R$ 1 milhão sem precisar de GPS.
Três escolas
O projeto prevê uma gincana ambiental em três escolas municipais durante cinco dias consecutivos, além de um painel destinado aos professores, realizado em um único turno. A programação inclui ações sobre reciclagem, prevenção de alagamentos e destinação adequada de resíduos para cooperativas. Nada contra educação ambiental. Muito pelo contrário.
Olhar apurado
A questão começa quando se coloca a lupa sobre os R$ 900 mil e sobre aquilo que acompanha as atividades educativas. O próprio projeto prevê um amplo pacote de divulgação nos veículos do Grupo Rede Amazônica: 169 inserções de envolvimento, outras 172 de campanha educativa, publicidade televisiva e no Amazon Sat, publieditoriais, banners, galerias de fotografias, série especial e previsão de 777.778 impressões no G1 Rondônia.
Olhar apurado 2
Tem ainda um programa especial de 24 minutos. Para uma administração em contenção de despesas, convenhamos, a consciência pode até ser “limpa”. O pacote de mídia é que veio bastante recheado.
Mais festa
Daí surge uma pergunta absolutamente legítima: dos R$ 900 mil pagos pelo contribuinte, quanto corresponde efetivamente às atividades de educação ambiental e quanto remunera divulgação e exposição nos veículos de comunicação? Outra pergunta também merece resposta: diante do discurso de austeridade da Prefeitura, R$ 900 mil representam um custo proporcional para uma iniciativa presencial concentrada em três escolas?
Mais festa 2
Não se questiona aqui a importância de ensinar crianças sobre meio ambiente. Questiona-se quanto custa ensinar. E, principalmente, quanto custa divulgar que se está ensinando.
Primeiro a grana
O contrato estabelece pagamento em duas parcelas de R$ 450 mil. A primeira poderá ser liberada após assinatura e apresentação da documentação exigida. A segunda dependerá da aprovação do plano definitivo e do início da execução físico-financeira. Mas há um detalhe particularmente interessante: outra cláusula estabelece que as atividades presenciais e as inserções de mídia somente começarão depois da integralização total do aporte financeiro.
Primeiro a grana 2
Traduzindo do burocratês: antes de algumas das principais entregas começarem efetivamente, o dinheiro público deverá estar integralizado. É uma confiança admirável. Especialmente quando exercida com dinheiro alheio. No caso, do contribuinte. Por isso, a fiscalização terá de ser igualmente generosa. Será necessário conferir cronograma, alcance, custos unitários, resultados e, principalmente, comprovar cada uma das inserções previstas.
Sem licitação
A Prefeitura justificou a contratação direta alegando metodologia própria, natureza singular e ampla capilaridade midiática regional. É justamente aí que mora outra discussão. Inexigibilidade não deveria funcionar como um “abre-te, Sésamo” da administração pública. Contratação direta exige fundamentação para demonstrar a inviabilidade de competição, além da justificativa dos preços e do enquadramento nas hipóteses legais.
Sem licitação 2
Se existia apenas uma instituição capaz de executar exatamente aquilo que o Município pretendia contratar, cabe à administração demonstrar isso com clareza. Porque “é singular” não pode ser apenas a versão administrativa de “confia”.
Tecnogame
O episódio inevitavelmente lembra outra contratação que já provocou barulho: a Porto Velho Tecnogame. Naquele caso, a Prefeitura contratou, também por inexigibilidade, a empresa Ayra Hub Inovações e Tecnologia Ltda. por R$ 2 milhões para planejamento, produção e organização do evento. A contratação acabou chegando ao Tribunal de Contas do Estado de Rondônia, onde tramita o Processo nº 00555/26 para apuração de possíveis irregularidades.
Tecnogame 2
Somados, Tecnogame e Consciência Limpa alcançam R$ 2,9 milhões em contratações diretas envolvendo evento, comunicação, mobilização e divulgação. Para uma Prefeitura em regime de austeridade, a carteira continua demonstrando excelente saúde justamente em algumas áreas.
Economia hipócrita
É essa contradição que precisa ser explicada. De um lado, o discurso oficial fala em contenção, dificuldades financeiras e necessidade de controlar despesas. Do outro, aparecem R$ 900 mil para um projeto com três escolas e forte componente midiático. Antes dele, R$ 2 milhões para a Tecnogame.
Economia hipócrita 2
Talvez Porto Velho esteja diante de uma nova ciência econômica: a austeridade seletiva. O dinheiro fica curto para determinadas prioridades, mas demonstra invejável elasticidade quando entra em cena algo com palco, evento, campanha ou visibilidade. A velha política do “apareça e será lembrado” parece ter encontrado sua versão orçamentária.
Devagar, quase…
Também não seria correto dizer que os órgãos de fiscalização permanecem completamente parados. O TCE-RO abriu procedimento para analisar a contratação da Tecnogame. A questão é a velocidade. Em decisão publicada em 1º de julho, o Tribunal concedeu mais 40 dias para a conclusão da análise técnica.
Devagar, quase… 2
Entre os pontos que precisam ser examinados estão definição do objeto, quantitativos, custos unitários e adequação da contratação às normas legais. A apreciação do pedido de tutela também foi postergada. E surge outro contraste curioso: enquanto o controle precisa de mais prazo para investigar, a máquina administrativa consegue contratar, empenhar e comprometer recursos com uma agilidade admirável. A fiscalização caminha. O dinheiro corre.
Mais problemas
A discussão, portanto, não deve ficar restrita ao projeto Consciência Limpa. O que merece atenção é a sucessão de escolhas administrativas que precisam ser confrontadas com o discurso de dificuldade financeira adotado pela gestão de Léo Moraes. Porto Velho precisa de educação ambiental. Precisa de tecnologia. Precisa de inovação.
Problemas urgentes
Mas precisa igualmente de saneamento, transporte escolar funcionando, ruas transitáveis, saúde, infraestrutura, limpeza, planejamento e serviços públicos capazes de chegar à população sem depender de uma câmera ligada para existir. E precisa, sobretudo, de transparência.
Problemas urgentes 2
Se R$ 900 mil representam preço justo pelo projeto contratado, a Prefeitura pode demonstrar. Se a Fundação Rede Amazônica era a única capaz de executar a solução nas condições pretendidas, a administração pode demonstrar. Se a inexigibilidade possui todos os requisitos legais, basta demonstrar.
Problemas urgentes 3
E se uma Prefeitura que anuncia austeridade consegue reservar R$ 900 mil para esse patrocínio e outros R$ 2 milhões para a Tecnogame, também seria bastante saudável explicar ao contribuinte quais critérios definem onde a crise financeira começa. E, principalmente, onde ela milagrosamente termina. Porque, pelo visto, em Porto Velho a crise pode até ser grave. Só não parece atingir todo mundo. O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de Porto Velho, da Fundação Rede Amazônica e das demais partes citadas.
*Parte desta coluna foi escrita com informações publicadas pela Coluna da Hora (escrita por Géri Anderson) em julho de 2026.
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Fonte: Tribuna Popular