Um estudo internacional divulgado pela organização Global Energy Monitor apontou uma contradição na política energética brasileira relacionada ao uso do carvão mineral. Segundo o relatório Boom and Bust 2026, o Brasil eliminou projetos de novas usinas termelétricas a carvão, mas manteve incentivos e contratos para prolongar o funcionamento das unidades já existentes até pelo menos 2040.
O levantamento destaca que o país deixou de ter novos empreendimentos de carvão em desenvolvimento após o encerramento de projetos no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, decisões recentes do governo federal garantiram a continuidade de usinas termelétricas consideradas altamente poluentes.
Entre os casos citados está o arquivamento do licenciamento da usina Nova Seival, em Candiota e Hulha Negra, além da interrupção do projeto da usina Ouro Negro, ambos no Rio Grande do Sul.
Apesar disso, o relatório aponta que o Congresso Nacional aprovou, em 2025, a prorrogação até 2040 das compras obrigatórias de energia gerada por termelétricas a carvão. A medida ocorreu logo após a realização da COP30, conferência climática das Nações Unidas realizada em Belém.
Segundo o estudo, o governo federal também renovou contratos milionários para manter em operação importantes complexos carboníferos brasileiros. Entre eles está o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, contratado até 2040 com custo anual estimado em R$ 1,8 bilhão.
Outra unidade citada é a usina Candiota II, no Rio Grande do Sul, cujo contrato foi renovado até 2040 pelo Ministério de Minas e Energia, com custo anual estimado em R$ 859 milhões.
O relatório ainda menciona o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026, que contratou 1,4 gigawatt de energia proveniente de carvão importado para abastecer usinas no Maranhão e no Ceará.
Especialistas ouvidos pelo estudo afirmam que o Brasil possui potencial suficiente em fontes renováveis para reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis. Segundo a Global Energy Monitor, os custos ambientais, climáticos e de saúde pública relacionados ao carvão acabam sendo repassados à população por meio das tarifas de energia.
O diretor executivo do Instituto Arayara, Juliano Bueno, afirmou que o país corre risco de ampliar os impactos climáticos ao manter a geração de energia a carvão nas próximas décadas.
Um levantamento do Centre for Research on Energy and Clean Air também citado pelo relatório estima que o complexo carbonífero de Candiota possa provocar até 1,3 mil mortes relacionadas à poluição e gerar custos de saúde superiores a R$ 11 bilhões até 2040.
O Ministério de Minas e Energia, por outro lado, defende a manutenção de usinas termelétricas como estratégia para garantir segurança energética ao Sistema Interligado Nacional. Segundo o governo federal, fontes como carvão, gás natural e petróleo ainda seriam necessárias para assegurar estabilidade no fornecimento de energia em momentos críticos.
O relatório mostra ainda que o número de países com novos projetos de carvão caiu globalmente. A China e a Índia seguem liderando a expansão da capacidade instalada do combustível fóssil, enquanto a América Latina aparece sem novos empreendimentos do setor em desenvolvimento.
Mesmo com o avanço das energias renováveis, o estudo alerta que grande parte das usinas previstas para encerramento no mundo continua operando, ampliando o desafio global de redução das emissões de gases de efeito estufa.
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Fonte: News Rondônia