As propostas de redução da jornada de trabalho no Brasil, em tramitação no Congresso Nacional, acirraram o debate entre economistas e entidades de classe sobre o fim da escala 6×1. De um lado, confederações que representam o empresariado projetam prejuízos bilionários e pressão inflacionária. De outro, pesquisadores vinculados à Unicamp e ao Ipea defendem que a medida pode estimular o mercado de trabalho e que o aumento nos custos operacionais seria marginal para a maioria dos setores produtivos.
Para a economista Marilane Teixeira, da Unicamp, a divergência não é meramente técnica, mas política. Ela argumenta que a resistência dos empregadores ignora ajustes dinâmicos que historicamente ocorrem no mercado de trabalho. “Os empregadores olham a partir do seu negócio e não para a economia como um todo. A mudança traz benefícios para o conjunto da sociedade”, afirma a pesquisadora, destacando que trabalhadores descansados podem inclusive aumentar a produtividade nacional.
Previsões de custos e inflação
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais causaria uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%). Segundo Ricardo Alban, presidente da CNI, a indústria perderia competitividade frente ao mercado internacional. Já a Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que os custos sobre a folha salarial subiriam 21%, o que poderia gerar um repasse de até 13% nos preços ao consumidor final.
Contraponto a esses dados, o estudo do Ipea indica que o aumento no custo operacional médio das empresas seria de apenas 1%. Segundo Felipe Pateo, um dos autores da análise, matematicamente o custo extra do trabalho não passaria de 10%, correspondendo exatamente ao tempo de horas reduzido. O instituto avalia que a maioria dos setores tem capacidade de absorver essa diferença sem gerar uma inflação generalizada, comparando o efeito ao de aumentos reais do salário mínimo.
Produtividade e o fator histórico
Um dos pontos centrais da disputa é a produtividade. Enquanto a CNI acredita ser improvável uma melhora na eficiência para compensar as horas a menos, economistas da Unicamp lembram que a jornada extensa não resolveu a estagnação da produtividade brasileira nas últimas décadas. O Ipea sustenta que o tempo livre do trabalhador pode gerar uma dinâmica positiva na economia, com o aumento do consumo e de atividades de lazer que movimentam outros setores.
O debate também resgata a transição feita na Constituição de 1988, quando a jornada caiu de 48 para 44 horas. Estudos da época não identificaram aumento no desemprego. Representantes patronais, porém, rebatem a comparação, alegando que a economia globalizada de hoje é muito mais competitiva do que a de 40 anos atrás. A expectativa é que o Congresso Nacional siga analisando as propostas em 2026, sob forte pressão de ambos os lados do conflito distributivo.
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Fonte: News Rondônia