No marco de 62 anos do golpe militar de 1964, especialistas alertam que o Brasil ainda carece de uma política de Estado consolidada para a busca e identificação de desaparecidos forçados. Diferente de outros países latino-americanos que estabeleceram programas permanentes, a investigação forense brasileira depende de acordos temporários de cooperação, ficando vulnerável a mudanças de governo. O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Unifesp é hoje o principal núcleo desse trabalho, analisando 1.049 caixas com ossadas da vala de Perus, em São Paulo.
O coordenador do CAAF, Edson Teles, destaca que a descontinuidade de recursos entre 2019 e 2022 interrompeu as análises objetivas de identificação, sendo retomadas apenas em 2024 após novo aporte do governo federal. Esse esforço recente permitiu identificar, em 2025, os restos mortais de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, vítimas do regime autoritário. Teles ressalta que, sem uma institucionalidade fixa, o trabalho forense de manutenção de remanescentes biológicos corre riscos constantes de novos cortes orçamentários.
Além dos entraves financeiros, o tema da ditadura ainda é considerado um tabu que reflete a permanência de grupos de poder daquela época na elite atual. O professor Andres Zarankin, da UFMG, aponta que as escavações no antigo prédio do DOI-Codi em São Paulo revelaram provas materiais de tortura, como vestígios de sangue, mas as pesquisas frequentemente ocorrem sem remuneração aos profissionais envolvidos. Para os pesquisadores, a preservação da memória histórica é essencial para romper o ciclo de violência institucional que ainda atinge as periferias brasileiras.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que cerca de 80 mil pessoas desaparecem anualmente no Brasil, parte delas por má conduta de agentes estatais ou crime organizado. Especialistas argumentam que o modelo de desaparecimento forçado criado nos anos 70 não foi totalmente desfeito, o que reforça a urgência de uma política pública que transcenda gestões presidenciais. A identificação das vítimas de Perus é vista como um passo fundamental para oferecer justiça às famílias e consolidar a democracia no país.
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Fonte: News Rondônia