A suspensão do canal Exército do Lula no WhatsApp provocou críticas de especialistas em direitos digitais e repercutiu na campanha presidencial neste domingo (11). A decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, foi revertida horas depois pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Vilas Bôas Cueva.
O canal, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, reúne cerca de 3,3 milhões de pessoas. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a retirada de todo o espaço de comunicação pode restringir a mobilização política, mesmo quando o objetivo declarado é combater a desinformação.
Especialistas questionam proporcionalidade da medida
Bruna Santos, gerente de políticas públicas da organização de direitos humanos Witness, classificou a decisão como “desproporcional”. Na avaliação dela, seria mais adequado determinar a remoção de publicações consideradas falsas, em vez de suspender todo o canal.
A especialista também afirmou que a medida poderia reduzir o alcance da campanha de Lula às vésperas do segundo turno. Essa avaliação representa a posição de Santos sobre a decisão judicial, e não uma conclusão definitiva sobre a motivação do ministro.
O jornalista Henrique Sampaio, especialista em tecnologia e coordenador de redes sociais da organização CTRL+Z, também alertou para possíveis impactos sobre a liberdade de expressão e a participação política.
Para Sampaio, a expressão fake news não deve ser usada como justificativa genérica para eliminar espaços de organização política. Ele defendeu que eventuais irregularidades sejam enfrentadas com medidas direcionadas aos conteúdos questionados, quando isso for suficiente.
O especialista também levantou a necessidade de esclarecer se os mesmos critérios são aplicados a grupos de apoiadores de diferentes candidaturas.
Decisão foi revertida no mesmo dia
A suspensão determinada por Nunes Marques repercutiu entre os candidatos e integrantes das campanhas. Lula classificou a medida como uma “intromissão indevida da Justiça Eleitoral”, enquanto Janones a chamou de “censura”.
Já a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) pediu a seus apoiadores que combatessem notícias falsas atribuídas à esquerda.
Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Vilas Bôas Cueva, derrubou a decisão que suspendia o canal. Com isso, a controvérsia ficou aberta à análise do plenário do TSE.
O que levou o ministro a suspender o canal?
Na decisão, Nunes Marques citou publicações feitas por Janones antes do primeiro turno que, segundo o ministro, continham informações sabidamente inverídicas. Ele argumentou que o canal teria sido utilizado para disseminar conteúdos já questionados pela Justiça Eleitoral.
Entre as publicações mencionadas está uma que atribui a Flávio Bolsonaro suposto envolvimento com milícias do Rio de Janeiro. O ministro afirmou que a acusação de que o candidato seria criminoso e teria ligação com milicianos ultrapassaria os limites da crítica política, por atingir sua honra e apresentar uma alegação factual que considerou aparentemente sem comprovação.
No debate público sobre o tema, adversários de Flávio citam sua relação com Adriano da Nóbrega, apontado como ex-chefe da milícia Escritório do Crime. Quando era deputado estadual, Flávio homenageou o ex-policial e empregou dois parentes dele em seu gabinete. Esses elementos, por si só, não comprovam a acusação de envolvimento do candidato com milícias.
Ministro defende medida para conter desinformação
Nunes Marques sustentou que suspender o canal era uma medida adequada e proporcional diante do risco de disseminação de desinformação em larga escala.
Segundo o ministro, mensagens publicadas no canal poderiam chegar rapidamente a milhões de aparelhos e ser replicadas em outros grupos por meio de links e cópias de textos. Ele também argumentou que a retirada de publicações específicas não teria sido suficiente em ocasiões anteriores, pois conteúdos questionados continuariam a circular.
Janones, por sua vez, negou a disseminação de notícias falsas e classificou a decisão como uma tentativa de censurar a campanha de Lula.
O caso coloca em discussão o equilíbrio entre o combate à desinformação eleitoral e a preservação da liberdade de expressão e da organização política. A decisão inicial foi revertida, mas a controvérsia sobre os limites das medidas adotadas pela Justiça Eleitoral ainda poderá ser examinada pelo plenário do TSE.
Com Informações de Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil.
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