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Por que continuamos pesquisando uma hidrelétrica décadas após sua inauguração?

Quando uma hidrelétrica entra em operação, temos a impressão de que a obra foi concluída e que seus impactos ficaram no passado. As máquinas deixam o canteiro de obras, as turbinas começam a gerar energia e a obra passa a integrar a paisagem.
Mas será que os impactos realmente terminam?
Nesta semana, dois acontecimentos aparentemente distintos chamaram minha atenção. O primeiro foi o pedido de revisão das licenças ambientais das usinas do rio Madeira, acompanhado da proposta de criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Madeira. O segundo foi o reconhecimento nacional concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a uma pesquisa desenvolvida em Rondônia sobre as transformações da paisagem no entorno da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio. Embora distintos, ambos revelam a mesma realidade: uma grande obra pode ser inaugurada, mas o território continua se transformando.
É justamente depois da inauguração que muitos dos efeitos das grandes obras se tornam mais evidentes. Enquanto a geração de energia costuma ser apresentada como um indicador de sucesso do empreendimento, comunidades, instituições públicas, pesquisadores e diferentes usuários do território continuam convivendo com mudanças na dinâmica dos rios, na paisagem, nas atividades econômicas e nas formas de ocupação do espaço. A conclusão da obra e o início de sua operação, portanto, não encerram os processos territoriais. Ao contrário, inauguram novas dinâmicas, novos desafios e, muitas vezes, novos conflitos.
Essas transformações acontecem raramente de forma imediata. Elas se acumulam ao longo dos anos e, muitas vezes, passam despercebidas no cotidiano. É justamente nesse ponto que a pesquisa científica se torna indispensável. Foi exatamente isso que demonstrou o estudo “Observação da mudança da paisagem do entorno da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio no Rio Madeira a partir do Google Earth”, desenvolvido no Grupo de Pesquisa em Geografia e Ordenamento do Território na Amazônia (GOT-Amazônia), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Utilizando uma ferramenta de livre acesso, Wagner de Melo Filho, sob minha orientação e coorientação da professora Gizele Carvalho Pinto, analisou como a paisagem continuou se transformando muitos anos após a entrada em operação da usina. Mais do que reconhecer um estudo específico, o prêmio concedido pelo CNPq evidencia que compreender essas mudanças depende de perguntas relevantes, métodos científicos consistentes e observação sistemática do território.
Ao longo de quase duas décadas pesquisando as transformações territoriais associadas às hidrelétricas na Amazônia, uma constatação tem se repetido: os maiores desafios raramente aparecem durante a construção das obras. Eles emergem depois da inauguração, quando novas relações sociais, econômicas, ambientais e institucionais passam a reorganizar continuamente o território. Nesse contexto, ganha importância a proposta de criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Madeira, ao reconhecer que decisões tomadas em um trecho do rio repercutem em toda a bacia hidrográfica e que essas transformações exigem planejamento, monitoramento, participação social e produção contínua de conhecimento.
Afinal, por que continuamos pesquisando uma hidrelétrica décadas após sua inauguração? Porque uma obra pode ser concluída em poucos anos, mas seus impactos permanecem por décadas. Enquanto o território continua se transformando, novas perguntas, novos desafios e novos conflitos também surgem. Talvez essa seja uma das principais contribuições da Geografia: compreender essas transformações para que o desenvolvimento não seja medido apenas pela energia que gera, mas também pelos territórios que transforma.
Referências
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA. Pelo 2º ano seguido, UNIR vence categoria do Prêmio Destaque de Iniciação Científica do CNPq. Porto Velho: PROPESQ/UNIR, 2026. Disponível em: https://propesq.unir.br/noticia/exibir/42619. Acesso em: 5 jul. 2026.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL EM RONDÔNIA (MPF/RO). MPF, MPT e DPU apresentam ações civis públicas para revisão das licenças ambientais das usinas do rio Madeira e criação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Madeira. Instagram, 2 jul. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DaVfkqlxgJp/. Acesso em: 5 jul. 2026.

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Fonte: News Rondônia

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