Dizem que o rio Madeira não corre, ele transporta histórias. Neste 30 de abril, enquanto o sol de Porto Velho insiste em nos lembrar da força que emana desta terra, eu me pego pensando em Jerônima Mesquita. Em 1980, quando o Dia Nacional da Mulher foi instituído em sua homenagem, talvez ela não soubesse que, décadas depois, uma professora, psicopedagoga e doutoranda, aqui nas margens do “Banqueta”, estaria tentando decifrar os mesmos enigmas que ela ousou enfrentar: o direito de ser, de votar, de existir e de ocupar.
Como educadora e pesquisadora, meu olhar é treinado para ver o que Vygotsky chamava de “gênese social”. Eu sei, pela teoria, que não nascemos mulheres prontas; nós nos tornamos, nas dobras da cultura, nos corredores das escolas e nos embates da vida. Mas há doze anos, a teoria ganhou carne e choro. Foi a maternidade que me estendeu o espelho mais honesto da minha vida. Ali, entre fraldas e livros de doutorado, eu descobri que a mulher pode, sim, ocupar o mundo todo mas aprendi, a duras penas, que esse caminho não é feito de pétalas.
Não quero romantizar. Ocupar espaços enquanto se exerce a maternidade é um exercício de equilibrar ausências e gerenciar abdicações. É entender que a estrutura social nos cobra uma perfeição que não cabe no relógio e nem na alma. É sentir na pele a “anulação” que as estatísticas de Rondônia insistem em esfregar na nossa face: somos um estado de mulheres fortes, mas ainda somos o topo de rankings que preferíamos não ocupar os da violência e do silenciamento.
Em Porto Velho, a mulher amazônida é a viga mestra de tudo. Ela está na sala de aula da rede municipal, na banca da feira, na pesquisa da universidade e no cuidado silencioso com os pais idosos. Ela é resistência pura. E, neste dia, meu respeito se divide em abraços iguais.
Respeito a mulher que, como eu, decidiu que o campo acadêmico e profissional era o seu solo de florescimento, carregando os filhos pela mão enquanto escreve teses. Respeito, com a mesma reverência, a mulher que decidiu que sua maior obra seria a dedicação exclusiva ao lar e à criação, transformando o cuidado em um ato político de amor. E guardo um lugar especial para a mulher que decidiu não ser mãe, rompendo com o destino biológico para dar à luz a projetos, sonhos e carreiras que também mudam o mundo.
Neste 30 de abril, meu parabéns não vai para a “mulher idealizada”, mas para a mulher real. Aquela que acorda em Porto Velho, encara o calor, as adversidades e as próprias sombras, e ainda assim comete o ato mais revolucionário de todos: o de se escolher todos os dias.
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Fonte: News Rondônia