No mês de janeiro de 2026, subi o Monte Roraima não como quem busca um destino, mas como quem atende a um chamado antigo, quase ancestral. A montanha, imponente e silenciosa, não se oferece de imediato. Ela exige. Cobra de cada passo uma entrega, de cada fôlego uma decisão. A trilha, marcada por pedras, lama e incertezas, parecia testar não apenas o corpo, mas sobretudo aquilo que não se vê: a persistência, a fé íntima, a capacidade de continuar mesmo quando o caminho se dissolve sob os pés.
Havia chuva. Uma chuva constante, quase ritualística, que caía como se o céu participasse daquela travessia. Encharcava roupas, pesava na mochila, tornava o chão traiçoeiro, mas, paradoxalmente, purificava. Era como se cada gota lavasse não apenas o suor, mas também excessos da alma, ruídos acumulados, urgências que já não faziam sentido ali.
Mas aquela não era apenas uma subida. Era também um reencontro com a história. Ao percorrer aquelas veredas, tive a nítida sensação de refazer, ainda que simbolicamente, as trilhas abertas por Marechal Cândido Rondon em 1927. Cada obstáculo enfrentado, o terreno hostil, o clima incerto, a vastidão quase indomável revelava, em sua essência, os desafios vividos por esse grande homem. E ali, entre pedras antigas e caminhos estreitos, compreendi não apenas a dimensão geográfica de sua jornada, mas a grandeza humana de sua missão.
E então, o topo.
Não foi um instante de conquista, mas de silêncio. Um silêncio denso, carregado de presença. As formações rochosas, esculpidas ao longo de milhões de anos, erguiam-se como testemunhas de um tempo que escapa à compreensão humana. A neblina, ora revelando, ora escondendo paisagens, parecia brincar com a ideia de realidade, como se dissesse: “nem tudo foi feito para ser totalmente visto”.
Ali, compreendi que há lugares que não se explicam, apenas se sentem. O Roraima não é cenário; é experiência. Não é paisagem; é linguagem. Fala com quem se dispõe a escutar sem pressa.
Caminhar por aquele platô foi como percorrer um território suspenso entre o mundo e o mistério. Cada passo carregava uma espécie de reverência. Não havia pressa, não havia necessidade de chegar porque, de algum modo, já se estava.
Foi nesse encontro entre natureza e memória que nasceu uma inspiração profunda. A vivência não se encerrou ali: transformou-se em escrita, em propósito, em homenagem. Dessa travessia emergiu a obra Rondon, trilhas que uniram o Brasil: 100 anos da subida ao Monte Roraima, não apenas como registro histórico, mas como ponte entre passado e presente, entre o homem que abriu caminhos e aqueles que, hoje, ainda se deixam guiar por eles.
E quando chegou o momento de descer, percebi que não retornava o mesmo. Algo havia sido deslocado internamente, como se a montanha, em sua grandiosidade silenciosa, tivesse reorganizado aquilo que em mim ainda era disperso.
Voltei trazendo pouco nas mãos, mas muito no olhar.
Porque há viagens que terminam no caminho de volta e há aquelas que continuam, discretas, dentro da gente.
Prof. Dr. Lourismar Barroso
Historiador/Escritor
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Fonte: News Rondônia