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HUMAITÁ: Memórias de um tempo que não volta

Há cidades que não nos deixam partir.
Mesmo quando a vida nos leva para longe, elas permanecem silenciosamente alojadas em algum lugar da alma, como um velho amor que aprendemos a esconder, mas jamais a esquecer.
Assim é Humaitá e sempre será para mim.
Depois de quarenta anos, indo e voltando à cidade que me viu crescer, voltei a caminhar por suas ruas. Confesso que não procurava um endereço, nem uma casa, nem uma praça. Procurava a mim mesmo.

O menino que na infância corria despreocupado pelas calçadas, que descobria o mundo entre o rio e as esquinas, que acreditava que os amigos seriam eternos e que o tempo, por alguma generosidade divina, pisaria devagar.
Pois é, esse “tempo” nunca caminha devagar.
Ele passa como as águas do rio Madeira que carrega troncos, barrancos, canoas, embarcações, sonhos e pessoas. E, quando voltamos, descobrimos que a cidade permaneceu apenas no mapa. Aquela que carregávamos no coração já pertence à memória.

As ruas são outras, ainda que conservem os mesmos nomes, ganharam asfalto, enlargueceram e as casas mudaram de rosto. As árvores já não fazem a mesma sombra. Até o vento parece soprar diferente e o cheiro da chuva parece ter escolhido outro caminho.
Os amigos… ah! os amigos.
Alguns seguiram destinos que eu nunca mais alcancei. Outros permaneceram apenas nas fotografias amareladas da lembrança. Tantos outros partiram de repente sem se despedir ou dizer um até logo, como o finado “Piga” – “Tibica” – “Tamízio” – “Isaias” – “Mazinho”. Há também aqueles que vivem apenas no delicado território da saudade, onde ninguém envelhece, ninguém discute, ninguém parte.
“Existe uma parte de mim que ainda conversa com você em silêncio.”Prof, Lourismar
Após uma longa reflexão, percebi que uma cidade não é feita apenas de concreto, de ruas, de casas simples e edifícios. Uma cidade é feita por pessoas que lhe emprestam a alma. Quando essas pessoas desaparecem, alguma coisa da cidade também desaparece com elas.
Talvez seja por isso que existe um tédio tão profundo em se ver sozinho na cidade onde um dia fomos felizes.
Não é solidão.
É outra coisa.
É caminhar cercado de lembranças que só nós conseguimos enxergar. É ouvir risadas que já não ecoam. É reconhecer esquinas que esqueceram o nosso nome. É sentir que existe uma distância impossível entre o presente e aquele tempo em que a vida parecia infinita.

Foi nela que descobri o valor da amizade, das primeiras responsabilidades, dos sonhos, das perdas, dos reencontros e da esperança. Foi ali que a infância, sem pedir licença, deu lugar à juventude. E foi ali, sem que eu percebesse, que a juventude começou a preparar o homem que hoje contempla o passado com os olhos marejados em lágrimas.
Talvez a maturidade seja exatamente isso, aprender que ninguém volta para casa. Voltamos apenas ao lugar onde ela existiu. Porque a casa verdadeira já foi desmontada pelo tempo.
Hoje compreendo que não foi Humaitá que mudou sozinha. Eu também mudei.
O menino que amava cada rua tornou-se um homem que aprende a amar as lembranças. O entusiasmo transformou-se em contemplação. A pressa deu lugar ao silêncio. E o sentimento pela cidade deixou de ser aquele amor impulsivo da juventude para tornar-se um afeto sereno, profundo e inevitavelmente melancólico.

Ainda assim, enquanto o sol se deita sobre os arbustos e a tarde vai recolhendo suas últimas luzes entre as folhagens, percebo que algumas cidades possuem o raro privilégio de nunca morrer.
Elas sobrevivem dentro daqueles que nelas aprenderam a viver. Humaitá continua existindo em mim. Não na cidade que meus olhos encontram. Mas naquela que meu coração, teimosamente, insiste em recordar. E talvez seja esse o destino de todos nós, caminhar pelas ruas do presente enquanto em silêncio, habitamos para sempre a cidade do passado.
Lourismar Barroso é Doutor em Educação – Dinter (UNIVALI/FCR). Mestre em História – Minter (PUCRS/FCR); especialista em Arqueologia da Amazônia (FSL) e Licenciatura em História (UNIR).

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Fonte: News Rondônia

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