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Gutta Matos – A história de sucesso de uma artista rondoniense que conseguiu empreender em sua arte

Gutta Matos tem clientes espalhados por todo o Brasil e pelo mundo. Suas peças contam com registro de autenticidade, certificado da madeira, ano de fabricação e o nº de peças produzidas
Hoje uma artista plástica conceituada em toda a região norte do Brasil, com obras vendidas inclusive para outros países, Gutta Matos chegou cedo a Rondônia. Com apenas sete meses de vida, em 1976, os pais decidiram migrar do Espírito Santo para um estado que nem ainda estava formado e foi na área rural da pequena cidade de Cacoal que a família se estabeleceu.
Gutta lembra que ainda na infância, quando brincava na lama após as chuvas, descobriu a arte. Com o barro da terra do próprio sítio, começava a imaginar e criar formas, das mais diversas. “Eu tinha uns nove anos! Sentava-se na lama e ia tentando criar o que me vinha na cabeça. E a partir daí, eu ia me aperfeiçoando”, relembra.
Ainda nas vivências do sítio, Gutta conta que o pai era um grande conhecedor de madeira. Conseguia identificar todas as espécies e ela foi buscando junto a ele todo esse conhecimento. Gutta viu na madeira a oportunidade de fazer arte.
Hoje, Divino Espírito Santo é a obra mais vendida pela artista
Contudo, apesar da paixão, a arte não era, até então, uma fonte financeira rentável e segura. Gutta precisou escolher uma profissão e, após se formar em Pedagogia, começou a dar aulas e assim ganhava a vida. Mas uma oportunidade a levou para longe de Rondônia.
Por 12 anos, entre 1994 e 2006, a jovem morou em São Paulo, mas nunca se afastou da arte. Por lá teve a chance de visitar museus, exposições e igrejas históricas. Foi aí que se apaixonou por Arte Sacra, encantada com tantos detalhes e representatividade.
De volta a Cacoal, Gutta foi uma das idealizadoras da exposição Arq Art, que neste ano chega à sua 5ª edição
De volta a Cacoal, aproveitou a abundância de madeira descartada em serrarias, marcenarias e também em demolições para construir os próprios móveis e a decoração da sua casa. Até 2011, Gutta se dividia entre Brasil e Itália, onde morava seu companheiro. Ao longo dos anos, passava alguns meses em Cacoal e outros na Toscana.
Uma rotina que a aproximou de grandes obras de artes e de muitos artistas. “Tudo quanto era Igreja e museu eu visitava, explorava nos mínimos detalhes”, conta.
Foi na Itália também que ela participou do projeto Vivência em Arte, uma espécie de intercâmbio em que, por um ano ininterrupto, a colocou junto a um artista, trabalhando, auxiliando e, principalmente, aprendendo. “Ele trabalhava exclusivamente com madeira que o mar devolvia. Começávamos o dia caminhando pela areia, coletando madeira na praia”. Um artista que passava meses produzindo peças e depois viajava o mundo com o seu catamarã, vendendo suas obras.
Após a experiência, Gutta Matos voltou definitivamente para a sua terra. Chegou a Cacoal apenas com o que coube em seu carro. Voltou trabalhando como professora, ministrando aulas em cursos técnicos e profissionalizantes. Gutta ganhava por aula e quando veio a pandemia de Covid-21, o desespero chegou junto. Não havia um plano B. A sua arte ainda não era uma fonte de renda suficiente para sobreviver financeiramente.
Em um momento de desabafo com uma amiga, Gutta contou suas dificuldades e que, para não perder as esperanças, criou um “Divino Espírito Santo” apenas com madeira reaproveitada. A amiga ficou encantada com a obra e garantiu que lhe arrumaria um cliente.
A artista, em sua oficina, mostra detalhes de cada madeira
A encomenda veio! Dezessete peças, para uma pousada do estado do Rio de Janeiro. Gutta levou alguns meses para produzir todas as peças e as enviou em uma espécie de quebra-cabeças. Com as peças desmontadas para o transporte, Gutta elaborou um passo-a-passo para que seus clientes conseguissem montar as obras quando chegassem ao seu destino.
“Essa produção me salvou! Financeiramente e Mentalmente! Quando as aulas puderam ser retomadas, após o período crítico da pandemia, eu apenas concluí a turma que já tinha iniciado. Eu entendi que agora sim eu poderia me dedicar e viver da minha arte”, emociona-se a artista.
“Hoje eu digo que o meu empreendedorismo está, principalmente, na minha capacidade de resgatar móveis, peças e preservar histórias”
 
Reconhecimento
Em 2022, Gutta conversou com a amiga Híria Bianchini, arquiteta e urbanista, sobre a ideia de realizar uma exposição. Surgiu assim a Arq Art que, neste ano, chega à sua 5ª edição, com cada vez mais destaque.
A exposição aproximou Gutta Matos de diversos arquitetos e decoradores que, a partir daí, começaram a procurar a artista para a criação de peças exclusivas e também para o restauro e ressignificação de peças antigas, dos seus próprios clientes, para incluir em novos projetos arquitetônicos.
“Hoje eu digo que o meu empreendedorismo está, principalmente, na minha capacidade de resgatar móveis, peças, e preservar histórias. Às vezes o cliente não quer desapegar de uma peça, pois tem uma conexão com aquele objeto, aquele móvel, uma memória afetiva e, através da minha arte, eu consigo restaurar e ressignificar”, explica.
Gutta usa em suas obras madeira de demolição. Na imagem a artista aparece ao lado de um pedaço de porta de mogno, que encontrou durante a demolição da antiga Prefeitura de Cacoal
Ou seja, hoje Gutta Matos vive um momento da sua trajetória em que os próprios clientes a procuram. Trabalha sob encomendas, com clientes espalhados por todo o Brasil e pelo mundo. Suas peças contam com registro de autenticidade, certificado da madeira, ano de fabricação e o nº de peças produzidas. Só para ter uma ideia, já são 68 obras do “Divino Espírito Santo” produzidas pela artista rondoniense. A obra mais cara vendida por Gutta Matos foi uma peça sacra, de São Francisco de Assis, enviada para Padova, na Itália. O valor da peça superou 20 mil reais.
“O que mais me orgulha, na minha arte, é ser da região amazônica e prezar pela sustentabilidade. Em todas as obras eu uso madeiras que seriam descartadas. Eu sou aquela artista que passa por um imóvel em demolição e corro lá para ver o que eu posso aproveitar. Tenho parceria com marcenarias para coletar o que seria descartado, até o menor pedaço de madeira”, finaliza.
Gutta Matos é referência na região Norte
 
(Texto e fotos: Giliane Perin)


Fonte: Tribuna Popular

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