O documentário Bandidos de Farda, da jornalista investigativa Juliana Dal Piva, estreia neste domingo (17) trazendo à tona documentos inéditos que revelam detalhes da estrutura clandestina de repressão da ditadura militar brasileira. A produção reúne arquivos históricos ligados ao coronel Cyro Guedes Etchegoyen, um dos principais nomes da inteligência do Exército durante o período autoritário.
A investigação apresenta relatórios secretos, manuais de interrogatório, registros de espionagem política e documentos que indicam a existência de uma estrutura organizada de perseguição, tortura, desaparecimentos forçados e violência de Estado durante os anos mais duros do regime militar.
Segundo a pesquisa conduzida por Juliana Dal Piva, os arquivos mostram que os mecanismos repressivos não atuavam de forma isolada, mas integravam uma engrenagem estruturada dentro dos órgãos de inteligência brasileiros.
Um dos principais focos da investigação envolve a atuação de Cyro Etchegoyen, apontado por pesquisadores como integrante da estrutura responsável pela profissionalização dos métodos repressivos utilizados pelo regime.
Os documentos também reforçam suspeitas históricas sobre a ligação do coronel com a chamada Casa da Morte, centro clandestino de tortura mantido pela ditadura em Petrópolis, no Rio de Janeiro. O local ficou marcado por denúncias de tortura física, violência psicológica, execuções clandestinas e desaparecimento de presos políticos.
Além da repressão armada, o material revela cursos de interrogatório realizados no exterior, métodos avançados de vigilância política e registros de vítimas que ainda não haviam sido oficialmente reconhecidas pelo Estado brasileiro.
A produção ainda destaca a participação de agentes clandestinos que atuavam fora das estruturas formais das Forças Armadas, ampliando a dimensão da rede de repressão política existente na época.
O documentário também aborda um tema historicamente invisibilizado nos debates sobre a ditadura: a violência sexual praticada por agentes da repressão. Segundo Juliana Dal Piva, os arquivos identificam casos de estupro utilizados como instrumento de terror e humilhação contra vítimas do regime.
“Os documentos mostram que havia uma estrutura organizada para cometer crimes de Estado. Não eram excessos isolados”, afirmou a jornalista em entrevista à Agência Brasil.
A repercussão da investigação já ultrapassou o Brasil. O relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para Verdade, Justiça e Reparação, Bernard Duhaime, declarou que as revelações podem justificar a reabertura de investigações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar.
Juliana Dal Piva dedica cerca de 15 anos de trabalho à investigação de violações ocorridas no período militar brasileiro. A jornalista também é autora do livro Crime Sem Castigo: Como os Militares Mataram Rubens Paiva, publicado em 2025.
Ao longo da entrevista, a investigadora afirmou que o documentário busca ampliar o debate público sobre memória, justiça e democracia no Brasil contemporâneo.
A produção audiovisual será exibida pelo canal do ICL Notícias e chega em um momento de renovação do interesse público sobre os impactos históricos da ditadura militar brasileira e suas consequências institucionais no presente.
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Fonte: News Rondônia