Nos últimos anos, a expansão de grandes projetos de infraestrutura em Rondônia, incluindo as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, que juntas somam mais de 7.300 MW de capacidade instalada e integram o Sistema Interligado Nacional, tem redefinido o uso do território amazônico. Mas, diante desse cenário, a pergunta central não é apenas como desenvolver a região, é: quem define os termos desse desenvolvimento e a quem ele serve?
Mas o que acontece quando olhamos para essas transformações a partir do território? Ao transformar rios em fontes de energia e rotas de escoamento, o que se reorganiza não é apenas a economia, é a vida de quem depende diretamente desses espaços. No caso do rio Madeira, estudos apontam alterações no regime hidrológico e nos ciclos de pesca após a instalação das barragens, afetando diretamente populações ribeirinhas. Progresso para quem? E a que custo?
Essa dinâmica revela um ponto central: o desenvolvimento não é neutro. Ele distribui ganhos e perdas de forma desigual. Enquanto os benefícios circulam em outras escalas, os impactos permanecem localizados. A energia gerada nas usinas é distribuída para diferentes regiões do país por meio do sistema elétrico nacional, atendendo demandas que ultrapassam o território onde é produzida. Quem concentra os ganhos? Quem absorve os prejuízos?
Em Rondônia, isso se materializa no cotidiano. Mudanças na pesca, deslocamentos de populações e restrições de acesso ao território tornam-se parte da experiência de comunidades ribeirinhas. Esses efeitos têm sido registrados no rio Madeira, onde o acesso ao território e os modos de vida foram reconfigurados. Ao mesmo tempo, decisões estratégicas continuam sendo tomadas fora desses espaços. Se os impactos são locais, por que as decisões não são?
Falar em desenvolvimento, portanto, exige mais do que indicadores econômicos. Exige olhar para o território como espaço vivido, onde políticas se traduzem em desigualdades concretas. Desenvolver significa apenas crescer, ou também redistribuir, reconhecer e incluir?
Se a Amazônia não é um espaço vazio, mas um território habitado e disputado, talvez a questão mais importante não seja apenas como avançar, mas quem participa dessa escolha, e quem continua ficando de fora dela.
Veja mais notícias
Fonte: News Rondônia