Mais uma vez, a Bolívia mergulha em uma grave crise política, econômica e social. O país vizinho de Rondônia enfrenta protestos intensos, desabastecimento de combustíveis, inflação crescente e bloqueios que já afetam até hospitais e serviços essenciais. O centro da tensão está em La Paz, sede do governo boliviano, onde milhares de manifestantes pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira, no cargo há apenas seis meses.
Parte da imprensa internacional já classifica o cenário como uma tentativa de golpe de Estado. O governo acusa aliados do ex-presidente Evo Morales de incentivar os protestos e aprofundar a instabilidade política. Motoristas enfrentam filas superiores a cinco horas para abastecer veículos, enquanto barricadas e piquetes interrompem estradas e comprometem o abastecimento em diversas regiões do país.
A crise começou inicialmente após a aprovação da Lei 1.720, que alterou regras sobre propriedades rurais na Bolívia. Segundo a Agência Brasil, camponeses e indígenas reagiram à medida por temerem o avanço da especulação sobre terras coletivas.
Especialistas associam a atual crise ao governo de Rodrigo Paz Pereira, mas também aos ex-presidentes Evo Morales e Luis Arce, ambos ligados ao Movimento ao Socialismo (MAS). A disputa interna pelo controle político da esquerda boliviana agravou ainda mais o cenário de instabilidade.
No centro do embate está Evo Morales, ex-presidente e líder cocaleiro, que possui um mandado de prisão por acusações relacionadas a estupro de vulnerável. Mesmo afastado formalmente do poder, Morales continua exercendo forte influência política, especialmente na região do Chapare, onde mantém apoio de sindicatos cocaleiros e movimentos populares.
O analista político Marcelo Cantelmi, do jornal argentino Clarín, afirma que a atual crise possui raízes profundas no modelo econômico implantado durante os governos do MAS. Segundo ele, Evo Morales foi responsável por um período de crescimento econômico sustentado pela nacionalização do gás natural, medida que ampliou a arrecadação fiscal e permitiu investimentos em infraestrutura, programas sociais e benefícios educacionais.
Entretanto, com o esgotamento gradual das reservas de gás e a redução das compras por parte do Brasil e da Argentina, a economia boliviana perdeu uma de suas principais fontes de sustentação.
“Com Evo, a Bolívia perdeu a oportunidade de se consolidar como grande fornecedora de energia da região. Sem novos investimentos e com a queda da produção, o país acabou entrando em colapso econômico”, avalia Cantelmi.
Outro nome citado pelos especialistas é o do ex-presidente Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo Morales e responsável pela continuidade do modelo de subsídios estatais. Segundo Cantelmi, o governo subsidiava fortemente os combustíveis, comprando petróleo e gás pelo valor internacional e revendendo internamente a preços muito inferiores para manter apoio social e estabilidade política.
Com a deterioração das contas públicas e a falta de recursos para sustentar o sistema, Rodrigo Paz Pereira assumiu o governo prometendo enfrentar a crise econômica. Filho de um ex-presidente boliviano exilado durante períodos de instabilidade política, Pereira surpreendeu ao vencer as eleições após sair do terceiro lugar nas pesquisas.
A principal medida adotada por seu governo foi justamente a redução dos subsídios aos combustíveis. Sem capacidade financeira para manter os pagamentos, o governo autorizou reajustes que elevaram os preços em até 163%, provocando forte impacto no custo de vida da população.
O aumento desencadeou uma onda de protestos, bloqueios e conflitos sociais que hoje ameaçam a estabilidade do país. Para especialistas, Rodrigo Paz enfrenta o desafio de controlar a crise econômica enquanto tenta conter a pressão política liderada por setores ligados ao MAS e ao ex-presidente Evo Morales.
Segundo a análise apresentada pelo Clarín, a Bolívia vive atualmente um cenário dividido entre o desgaste acumulado após anos de crise estrutural e a tentativa do novo governo de encontrar uma saída econômica para um país marcado pela dependência energética, instabilidade política e forte polarização social.
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Fonte: News Rondônia