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Controle da obesidade pode contribuir para reduzir fatores associados a alguns tipos de câncer, apontam estudos

A relação entre obesidade e câncer vem sendo cada vez mais estudada pela comunidade científica. Evidências acumuladas mostram que o excesso de peso está associado ao aumento do risco de pelo menos 13 tipos de câncer, entre eles os de endométrio, esôfago, fígado, rim, pâncreas, intestino, ovário e mama após a menopausa.
Nesse contexto, o tratamento adequado da obesidade, incluindo mudanças no estilo de vida e, quando indicados, medicamentos para controle do peso, pode representar uma estratégia importante não apenas para reduzir o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas, mas também para atuar sobre fatores relacionados ao desenvolvimento de alguns tumores.
Segundo o médico Everaldo Ferreira, da Kacoal Clínica Médica, o ponto central é compreender que a obesidade não deve ser encarada apenas como uma questão estética. O excesso de tecido adiposo provoca alterações hormonais e metabólicas, além de estar relacionado à resistência à insulina e a processos inflamatórios crônicos, mecanismos que podem favorecer o desenvolvimento de determinados tipos de câncer.
O que dizem os estudos sobre os medicamentos para emagrecimento?
Confirme pontuou o Dr. Everaldo Ferreira, parte das pesquisas mais recentes concentra-se nos medicamentos que atuam sobre o sistema das incretinas, especialmente os agonistas do receptor de GLP-1. A classe inclui medicamentos como semaglutida, liraglutida e também a tirzepatida, que possui ação sobre os receptores de GLP-1 e GIP.
Um dos estudos mais relevantes foi publicado em 2024 no JAMA Network Open. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 1,65 milhão de pessoas com diabetes tipo 2, sem diagnóstico prévio dos 13 tipos de câncer associados à obesidade.
Na comparação com pacientes que utilizavam insulina, aqueles tratados com medicamentos da classe GLP-1 apresentaram menor risco de 10 dos 13 cânceres relacionados à obesidade, incluindo tumores de esôfago, intestino, endométrio, vesícula biliar, rim, fígado, ovário e pâncreas, além de meningioma e mieloma múltiplo.
Entretanto, existe uma ressalva importante: quando os medicamentos GLP-1 foram comparados à metformina, não foi observada redução significativa no risco dos cânceres avaliados. Por se tratar de um estudo observacional, os resultados demonstram associação, mas não são suficientes para afirmar que esses medicamentos sejam responsáveis diretamente pela redução dos casos de câncer.

Novos dados reforçam o interesse científico
Outra pesquisa, publicada em 2025 no JAMA Oncology, acompanhou mais de 86 mil adultos com sobrepeso ou obesidade e comparou usuários de agonistas de GLP-1 com pessoas que não utilizavam esses medicamentos.
O estudo encontrou associação entre o uso de GLP-1 e menor risco geral de câncer. As reduções mais consistentes foram observadas para câncer de endométrio, ovário e meningioma. Ao mesmo tempo, os pesquisadores identificaram uma possível elevação, embora não estatisticamente significativa, no risco de câncer renal, reforçando a necessidade de acompanhamento de longo prazo.
Confirme explicou o médico Everaldo Ferreira, os próprios autores destacam que ainda são necessários estudos com acompanhamento mais prolongado para esclarecer os mecanismos envolvidos e determinar se existe realmente uma relação causal.
E a tirzepatida?
O que os estudos disponíveis permitem dizer é que medicamentos da classe GLP-1 estão associados, em determinadas pesquisas, a uma menor ocorrência de alguns cânceres relacionados à obesidade. Isso pode estar relacionado à perda de peso e às melhorias metabólicas provocadas pelo tratamento, mas também existem hipóteses sobre outros efeitos biológicos que ainda estão sendo investigados.
O próprio Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) destaca que medicamentos aprovados para tratar a obesidade, incluindo tirzepatida, semaglutida e liraglutida, já foram associados a menor risco de alguns cânceres relacionados à obesidade em determinados estudos. Porém, o órgão também ressalta que uma meta-análise de ensaios clínicos randomizados não encontrou associação entre os agonistas de GLP-1 e redução do risco de cânceres gastrointestinais.
Prevenção do câncer de mama
Entre os tumores relacionados à obesidade, o câncer de mama merece atenção especial. A relação entre obesidade e câncer de mama após a menopausa é bem estabelecida, e estudos indicam que a perda de peso pode estar associada a uma redução desse risco.
No entanto, não é possível afirmar atualmente que a tirzepatida ou outros medicamentos GLP-1 previnam o câncer de mama. No estudo publicado no JAMA Network Open em 2024, por exemplo, não houve redução significativa do câncer de mama após a menopausa entre os usuários de GLP-1 quando comparados aos usuários de insulina.
Emagrecer continua sendo uma questão de saúde
Para o Dr. Everaldo Ferreira, a redução do peso corporal pode melhorar parâmetros como glicemia, resistência à insulina, pressão arterial e inflamação, além de contribuir para a redução de diversos fatores associados ao risco de doenças crônicas.
A possível influência sobre determinados tipos de câncer é uma linha promissora de investigação científica, mas ainda não deve ser apresentada como uma indicação específica dos medicamentos para prevenção de tumores.
Assim, a mensagem principal é de controle adequado da obesidade, acompanhamento médico e prevenção multifatorial. Medicamentos como a tirzepatida podem fazer parte do tratamento quando existe indicação clínica, mas não devem ser utilizados com a finalidade de prevenir câncer.
“Em resumo, estudos observacionais sugerem associação entre medicamentos da classe GLP-1 e menor ocorrência de alguns cânceres relacionados à obesidade. Esses resultados são promissores, mas ainda não comprovam que a tirzepatida previna diretamente o câncer. A ciência continua investigando essa possível relação, enquanto o controle do excesso de peso permanece uma das estratégias importantes para reduzir diversos riscos à saúde”, finalizou o Dr. Everaldo Ferreira.


Fonte: Tribuna Popular

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