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Coluna ESPAÇO ABERTO – Eduarda Campopiano: quando a polêmica vira projeto de poder

4 minutos de leitura

Confira as notícias do dia, por Cícero Moura.

ANÁLISE A eleição de Eduarda Campopiano para a Assembleia Legislativa de São Paulo não pode ser analisada apenas como mais uma vitória da direita ou do bolsonarismo.

Foto: Reprodução / Redes Sociais ABSOLUTA Com 23 anos e impressionantes 1.956.238 votos, ela se tornou a deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026 e protagonizou uma das maiores votações da história do Legislativo paulista.

PREFERÊNCIA O número merece respeito. Quase dois milhões de pessoas fizeram uma escolha consciente nas urnas.

CAUTELA Mas exatamente por isso o fenômeno merece ser analisado para além da comemoração eleitoral.

PAUTA

Eduarda construiu sua projeção em cima de um discurso de enfrentamento. Assume-se antifeminista, já se apresentou como inimiga das feministas e, depois de eleita, avisou que “a guerra tá só começando”.

Foto: Reprodução / Anima Podcast  PAUTA 2 Também questionou a própria existência do feminicídio como categoria específica, posicionou-se contra cotas raciais e fez declarações controversas sobre indígenas e colonização.

ESCOLHA

É legítimo ser conservador. É legítimo combater o feminismo. É legítimo ser contra cotas, aborto ou qualquer outra política pública.

ANTAGONISMO Democracia existe justamente para comportar posições profundamente diferentes.

ENFRENTAMENTO O problema começa quando o debate público abandona os argumentos e passa a depender permanentemente do choque.

OBSERVAÇÃO Existe uma diferença enorme entre contrariar uma ideia e transformar grupos inteiros em combustível para engajamento.

OBSERVAÇÃO 2

Quando uma parlamentar afirma que não considera que o feminicídio “seja algo que exista”, não está apenas contrariando feministas.

OBSERVAÇÃO 3

Está questionando uma categoria jurídica criada pelo Estado brasileiro para identificar assassinatos de mulheres relacionados à condição de gênero.

OBSERVAÇÃO 4

Pode-se discutir a legislação, sua eficácia e até defender sua alteração. Mas um parlamentar precisa estar preparado para ir além da frase de impacto.

ÍNDIOS

Mais grave ainda foi a generalização envolvendo indígenas. Em participação em podcast, Campopiano comemorou a colonização e a catequização e associou indígenas a canibalismo, sacrifícios e morte de crianças.

Foto: Reprodução / Inteligência Artificial  MP As declarações provocaram reação de lideranças indígenas e agora são objeto de questionamentos ao Ministério Público.

RESPONSABILIZAÇÃO

Aqui já não estamos diante simplesmente da velha disputa entre direita e esquerda. Estamos falando da responsabilidade que acompanha a palavra de alguém investido de mandato público.

PROVOCAÇÃO

Outro episódio ocorrido depois da eleição ajuda a compreender esse estilo político. Ao provocar Erika Hilton nas redes sociais, Campopiano referiu-se à deputada como “homem biológico”.

Foto: Reprodução / Redes Sociais  REPRESENTAÇÃO A publicação levou a deputada estadual eleita Sofia Favero a apresentar representação ao Ministério Público de São Paulo por suposta transfobia e violência política de gênero.

REPRESENTAÇÃO 2 É importante registrar: existe uma representação pedindo investigação, não uma condenação contra Campopiano.

FATO

E talvez esteja justamente aí a questão mais interessante dessa eleição. Eduarda não venceu apesar das polêmicas. Há fortes indícios de que venceu também por causa delas.

CORRENTE

A política das redes sociais descobriu que indignação produz audiência. Audiência produz seguidores. Seguidores podem ser convertidos em votos.

LACRAÇÃO Nesse ambiente, a frase ponderada perde para a provocação. A explicação complexa perde para o vídeo de alguns segundos.

CONSTATAÇÃO

O adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes e passa a ser personagem necessário para manter permanentemente mobilizada uma audiência.

RECONHECEU A própria Campopiano atribuiu parte de seu sucesso à maneira direta de falar e ao uso das redes sociais.

NÃO VAI PARAR

Sua campanha teve forte investimento digital e ela afirma que pretende levar para o mandato aquilo que chama de “combate cultural”.

RESPOSTA

Funcionou eleitoralmente. Quase dois milhões de votos encerram qualquer discussão sobre a eficiência dessa estratégia.Mas não encerram a discussão sobre sua qualidade.

PLURALISMO

Uma democracia saudável precisa de conservadores, progressistas, liberais, socialistas e representantes das mais diferentes correntes políticas. O que ela não precisa é transformar divergência permanente em hostilidade permanente.

TESTE

Campopiano agora terá uma oportunidade extraordinária. Depois de provar que sabe conquistar atenção, terá de provar que sabe exercer poder. É uma diferença gigantesca.

TESTE 2

Nas redes sociais, uma frase incendiária pode render milhões de visualizações. Na Assembleia Legislativa, será preciso discutir orçamento, segurança, educação, saúde, infraestrutura, fiscalização do Executivo e os problemas cotidianos de mais de 40 milhões de paulistas. É aí que começará o verdadeiro teste.

OUTRO PERFIL

Sua votação também envia um recado incômodo à política tradicional: uma geração que domina a linguagem digital está conseguindo transformar seguidores em exércitos eleitorais numa velocidade que partidos e políticos convencionais ainda não compreenderam completamente.

ALERTA

Ignorar esse fenômeno seria um erro. Celebrá-lo sem nenhuma reflexão também. Talvez a pergunta mais importante deixada pelos quase dois milhões de votos de Eduarda Campopiano não seja se ela está certa ou errada em suas posições.

ALERTA 2

A pergunta é outra: que tipo de política estamos premiando quando a capacidade de provocar passa a ser uma das ferramentas mais eficientes para conquistar milhões de votos?

LEGÍTIMA

Eduarda Campopiano venceu uma eleição de maneira espetacular. Agora terá quatro anos para demonstrar se por trás da extraordinária capacidade de gerar polêmica existe também extraordinária capacidade de produzir política pública.

FRASE Eleição se ganha com votos. Mandato se justifica com resultados.


Fonte: Tribuna Popular