Confederação Nacional da Indústria divulga o documento “Visão da Indústria para a COP31” e traz as principais diretrizes do setor produtivo brasileiro para as negociações sobre a agenda climática
A viabilização do financiamento climático e a redução do custo de capital para a descarbonização tornaram-se o eixo prioritário da indústria brasileira para as negociações da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31). Em contagem regressiva para a cúpula global, que começa na próxima segunda-feira (9) e segue até o dia 20 de novembro, em Antália, na Turquia, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta quarta-feira (7) o documento Visão da Indústria para a COP31, que orientará a atuação do setor produtivo no cenário internacional.
O material adverte que transformar as metas do Acordo de Paris em resultados práticos exige destravar recursos internacionais e estruturar mecanismos financeiros eficientes.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, alerta que a eficácia da descarbonização industrial está diretamente atrelada à segurança de investimentos e a um ambiente internacional equilibrado. “A indústria brasileira não é apenas parte da solução para a crise climática. Ela é o verdadeiro motor da transição para uma economia de baixo carbono. Na COP31, em Antália, o mundo precisa dar o passo definitivo da promessa para a implementação prática e mensurável”, destacou Alban.
O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação, Davi Bomtempo, ressalta a importância da articulação multilateral para viabilizar as metas. “Para a CNI, fortalecer a implementação de ações climáticas que permitam reduzir emissões e adaptar os setores industriais é o caminho para a transição da economia de baixo carbono. Como interlocutora do setor industrial, queremos construir consensos para identificar as ações necessárias que impulsionarão o progresso diante da implementação do Acordo de Paris”, explicou Bomtempo.
Como fechar a conta do Acordo de Paris?
A meta estabelecida na COP29 prevê a mobilização de US$ 300 bilhões ao ano até 2035, com a aspiração global de atingir US$ 1,3 trilhão anuais. No entanto, as negociações enfrentam um forte embate diplomático: enquanto países em desenvolvimento exigem recursos públicos e doações (com base no Artigo 9.1), economias desenvolvidas tentam direcionar o foco para a captação privada.
A CNI defende uma solução equilibrada e pragmática:
Cumprimento do Artigo 9.1: a mobilização de recursos públicos e doações por parte dos países desenvolvidos é um compromisso legal obrigatório que não pode ser substituído por aportes privados.
Diversificação e mecanismos nacionais: o setor produtivo apoia a atração complementar de capital privado por meio de instrumentos financeiros brasileiros consolidados, como o EcoInvest Brasil, o BIP e o Fundo Clima.
Foco na indústria: a prioridade imediata é eliminar barreiras burocráticas, mitigar riscos e diminuir o custo de capital para viabilizar os investimentos necessários na descarbonização do parque fabril nacional.
Os demais pilares do setor produtivo para a COP31 Além do financiamento, o documento Visão da Indústria para a COP31 detalha as diretrizes estratégicas do setor produtivo em outros cinco eixos decisivos: 1. Meta Global de Adaptação (GGA): preparando a infraestrutura e as cidades A COP30 aprovou 59 indicadores globais para mensurar a adaptação a eventos climáticos extremos. Contudo, o impasse sobre quem financiará a execução das medidas, com necessidades estimadas em até US$ 387 bilhões anuais, transferiu a decisão para a COP31. A CNI cobra que as metodologias reflitam a realidade produtiva e propõe que o Brasil lidere a testagem prática dos indicadores, integrando-os ao Plano Clima e à plataforma IndicaClima com capacitação e suporte financeiro internacional.
2. Programa de Trabalho de Mitigação (MWP): descarbonização sem punição Criado para acelerar o corte de emissões sob um mandato estritamente voluntário, não prescritivo e soberano, o MWP tem sido palco de impasses na ONU. A indústria brasileira defende a preservação do caráter não punitivo do programa, vinculando eventuais metas a incentivos reais de financiamento e transferência de tecnologia. Além disso, sustenta uma transição energética gradual e economicamente viável, que valorize soluções maduras já presentes no país, a exemplo dos biocombustíveis, e impeça a criação de novas barreiras ao comércio.
3. Comércio e Clima: a luta contra o protecionismo verde Com o avanço de legislações unilaterais como a taxa de carbono na fronteira da União Europeia (CBAM) e a lei antidesmatamento europeia (EUDR), os países em desenvolvimento alertam para a elevação de custos de conformidade e o risco de restrições disfarçadas às exportações. A CNI exige transparência e a validação do princípio de interoperabilidade, assegurando que as políticas ambientais brasileiras sejam reconhecidas internacionalmente sem discriminação, além do fortalecimento do Subcomitê do Acordo UE-Mercosul para garantir o reconhecimento da indústria e da agricultura de baixo carbono.
4. Balanço Global (GST2): da promessa à ação concreta Em Antália terá início o segundo ciclo do Balanço Global (GST2), que avaliará o progresso do Acordo de Paris até 2028. O processo ocorre sob o alerta do PNUMA de que a contenção do aquecimento a 1,5°C não será atingida no curto prazo. O setor produtivo defende que o GST2 destrave os fluxos financeiros para viabilizar os compromissos, reconhecendo a diversidade de trajetórias tecnológicas, a coexistência de fontes renováveis e a valorização econômica da floresta em pé.
5. Agenda de Ação e SB COP: compromissos empresariais em escala A Agenda de Ação da COP31 mobiliza governos e setor privado em torno de metas voluntárias até 2035, impulsionada pela rede Sustainable Business COP (SB COP), presente em mais de 120 países e com alcance a 55 milhões de empresas. No âmbito dessa aliança, o setor produtivo assume metas em eixos estratégicos:
Industrialização Verde: elevar para 15% a taxa de uso circular de materiais até 2035;
Transição Energética: aumentar para 35% a participação da eletricidade no consumo industrial final até 2035;
Mecanismo BRIDGE: expandir a estruturação de carteiras de projetos sustentáveis prontos para receber investimentos (finance-ready).
O espaço da indústria na COP31
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) marcará presença na Blue Zone da Cúpula do Clima com o Implementation Hub Pavilion. O espaço será dedicado a painéis e encontros e reunirá lideranças empresariais, representantes de governos, instituições financeiras e organizações internacionais para compartilhar experiências, discutir oportunidades e fortalecer parcerias para a transição a uma economia de baixo carbono.
(UN Climate Change – Kiara Worth)
Fonte: Tribuna Popular
