O avanço das plataformas de apostas esportivas e jogos online no Brasil tem colocado a saúde mental no centro do debate. Embora a atividade seja legalizada e regulamentada para empresas autorizadas, especialistas alertam que o uso excessivo pode desencadear um quadro de dependência comportamental, comprometendo a vida financeira, profissional e familiar dos apostadores.
Levantamento técnico do Banco Central aponta que aproximadamente 24 milhões de brasileiros realizaram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas ao longo de 2024. Segundo o estudo, os valores movimentados mensalmente variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões.
Já o Ministério da Fazenda informou que, em 2025, mais de 25 milhões de brasileiros realizaram apostas em plataformas autorizadas a operar no país.
Psicóloga explica por que as apostas podem se tornar um vício
Para a coordenadora do curso de Psicologia da Afya São Lucas, em Porto Velho, Emanuelly Guimarães, o problema surge quando a aposta deixa de ser uma forma de entretenimento e passa a ocupar espaço central na rotina da pessoa.
Segundo ela, o funcionamento do cérebro ajuda a explicar esse comportamento.
“Ao apostar ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Como a recompensa acontece de forma imprevisível, o cérebro passa a buscar repetidamente essa sensação, criando um ciclo difícil de interromper.”
A especialista explica que muitas pessoas desenvolvem uma falsa percepção de controle sobre os resultados, acreditando que conseguem prever vitórias ou recuperar rapidamente o dinheiro perdido, comportamento que favorece novas apostas.
Quem apresenta maior risco?
Embora qualquer pessoa possa desenvolver dependência, alguns fatores aumentam significativamente o risco.
Entre eles estão:
Histórico de outras dependências
Pessoas que já apresentam comportamentos compulsivos possuem maior vulnerabilidade.
Dificuldades emocionais
Ansiedade, depressão, estresse e frustrações podem levar o indivíduo a utilizar as apostas como forma de aliviar sentimentos negativos.
Facilidade de acesso
Com os aplicativos disponíveis 24 horas por dia e publicidade constante prometendo ganhos rápidos, o acesso nunca foi tão simples.
Segundo Emanuelly, esse cenário amplia a exposição da população ao risco.
Quando a aposta deixa de ser diversão?
De acordo com a psicóloga, alguns sinais indicam que o comportamento já ultrapassou o limite do entretenimento.
Entre eles estão:
necessidade constante de apostar;
dificuldade para interromper o hábito;
mentiras sobre perdas financeiras;
tentativas frequentes de recuperar dinheiro perdido;
isolamento social;
irritabilidade;
preocupação excessiva com apostas.
Quando esses comportamentos passam a gerar prejuízos emocionais, financeiros e familiares, o quadro pode indicar dependência.
Impactos vão além do dinheiro
Os efeitos do vício em apostas não atingem apenas o bolso.
Segundo Emanuelly Guimarães, as consequências podem incluir:
ansiedade;
depressão;
culpa constante;
conflitos familiares;
perda de confiança;
isolamento;
queda de desempenho profissional;
dificuldades financeiras;
em casos graves, pensamentos suicidas.
A especialista destaca que a dependência compromete toda a rede de relacionamentos do indivíduo.
Tratamento psicológico é fundamental
O acompanhamento psicológico é considerado uma das principais ferramentas para romper o ciclo da dependência.
A terapia auxilia o paciente a:
compreender seus gatilhos emocionais;
modificar pensamentos relacionados ao jogo;
controlar impulsos;
desenvolver estratégias mais saudáveis para lidar com frustrações.
Segundo a especialista, recaídas podem ocorrer durante o tratamento, mas fazem parte do processo de recuperação.
Como familiares podem ajudar?
Familiares e amigos costumam ser os primeiros a perceber mudanças de comportamento.
Os principais sinais incluem:
pedidos frequentes de empréstimos;
irritabilidade ao falar sobre dinheiro;
isolamento;
uso constante de aplicativos de apostas;
alterações bruscas de humor.
A recomendação é evitar julgamentos e incentivar a busca por ajuda profissional.
“O acolhimento costuma ser mais eficiente do que críticas ou acusações, que apenas aumentam o sentimento de culpa”, explica Emanuelly.
Estratégias para evitar recaídas
Entre as medidas recomendadas durante o tratamento estão:
excluir aplicativos de apostas;
limitar o acesso ao dinheiro;
evitar conteúdos relacionados ao jogo;
identificar situações que funcionam como gatilhos;
fortalecer a rede de apoio;
substituir o hábito por atividades saudáveis.
Buscar ajuda cedo aumenta as chances de recuperação
Para a psicóloga, o tratamento deve ser iniciado assim que a pessoa perceber que perdeu o controle sobre o comportamento.
Quanto mais cedo ocorre a intervenção, menores tendem a ser os prejuízos financeiros, emocionais e familiares.
Ela reforça que a dependência em apostas possui tratamento, mas exige reconhecimento do problema e comprometimento com a recuperação.
Perguntas frequentes
O vício em apostas é considerado uma doença?
Sim. A dependência em jogos é reconhecida como um transtorno comportamental que pode comprometer diversas áreas da vida.
Quais são os primeiros sinais?
Preocupação constante com apostas, dificuldade para parar, mentiras, dívidas e tentativas de recuperar perdas financeiras.
O tratamento funciona?
Sim. O acompanhamento psicológico é uma das principais formas de tratamento e pode ser associado a outras estratégias de cuidado quando necessário.
Quando procurar ajuda?
Assim que o comportamento começar a causar prejuízos financeiros, emocionais, familiares ou profissionais.
Com informações de Freud Antunes
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Fonte: News Rondônia