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As palmeiras centenárias, símbolos da nossa história que viraram saudades

Há um silêncio que mora nas ruas de terra, um silêncio pesado, desses que parecem guardar histórias que ninguém mais conta. A ladeira, marcada por sulcos profundos, carregava não apenas a água da chuva, mas os passos de quem já subiu e desceu ali com pressa, com medo ou com esperança.
Por diversas vezes subi e desci essa ladeira. Indo para a escola, equilibrando sonhos ainda pequenos e aos domingos, caminhando rumo à igreja, levando comigo uma fé simples, dessas que não escorregam, mesmo na lama.
Lembro das vezes em que procurávamos um pedaço firme do chão, um lugar seguro para pisar sem escorregar como se, no meio da lama, também estivéssemos tentando não cair dentro de nós mesmos. Cada passo era um cálculo, cada descida uma pequena coragem, cada subida um esforço que parecia maior do que o próprio caminho.
As casas, desgastadas pelo tempo, observavam tudo em silêncio. E ali, imponentes, as famosas palmeiras centenárias se erguiam como guardiãs da memória, altas e serenas, testemunhas de gerações que passaram por aquela ladeira. Seus troncos marcavam o tempo, e suas copas sussurravam histórias que só o vento parecia entender.
Os fios elétricos cruzavam o céu cinza como linhas de um destino já traçado. E, no alto da ladeira, erguia-se o antigo Hotel Humaitá, ponto de chegada e partida, silencioso observador de quem vencia a subida e de quem se despedia da cidade. Do outro lado, havia uma farmácia , lugar de cura e de urgências, onde a vida seguia em pequenos gestos, entre remédios, conselhos e esperas.
Ali também, uma figura solitária parecia suspensa entre ir e ficar, como se o mundo inteiro fosse aquela pausa, o instante antes de decidir descer ou voltar.
Com o passar dos anos, veio a transformação, e o progresso alcançou Humaitá. A rua de lama, antiga Marechal Deodoro que tantas vezes testou nossos passos, deu lugar ao asfalto liso, firme, sem os sulcos que guardavam nossas hesitações. Já não era preciso escolher onde pisar.
Mas o tempo, ao mesmo tempo em que constrói, também leva. As palmeiras centenárias, que um dia foram símbolos e memória viva daquele caminho, já não existem mais. Ficaram apenas nas lembranças, fincadas em quem viveu, como raízes invisíveis que ainda insistem em nos prender ao que fomos.
E assim, o asfalto cobriu a lama, mas não conseguiu cobrir a saudade que habita em nossa memória.
Talvez a vida tenha sido sempre isso: uma estrada que muda com o tempo, mas que nunca apaga completamente aquilo que nos ensinou a caminhar… mesmo quando o que resta são apenas lembranças do que já não está mais ali.
Lourismar Barroso
Historiador/Escritor

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Fonte: News Rondônia

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