Na lendária Avenida Jatuarana, principal via que conecta os bairros da zona sul de Porto Velho, está localizada a Praça das Crianças, embora, para os moradores, ela sempre tenha sido conhecida por outro nome: Praça da “Pirâmide”. Durante os anos 1990, o espaço se consolidou como um dos maiores símbolos de lazer, convivência e identidade comunitária da região, tornando-se um dos pontos mais frequentados dessa parte da capital.
A origem do nome está diretamente ligada à iniciativa do ex-funcionário das Centrais Elétricas de Rondônia (Ceron) e empresário Valdeir Zago. Há mais de 30 anos, ele idealizou, no mesmo local onde hoje funciona uma bem equipada academia de musculação, ginástica e dança, um bar que rapidamente se transformou em referência na zona sul e em um dos espaços mais frequentados da época.
O empreendimento nasceu em um momento de mudança em sua trajetória profissional. Após anos de trabalho intenso e constantes viagens, Valdeir decidiu investir em um negócio próprio, apostando em um espaço de convivência e lazer para a comunidade. “Naquela época, resolvemos investir em um bar e restaurante. Eu vinha de um momento em que trabalhava bastante e viajava muito. Não tinha tempo para nada, foi quando resolvi apostar em um bar que funcionava aqui mesmo, neste local onde hoje estamos com a Z. A Fitness Academia. Deu muito certo, tanto que o local ficou historicamente conhecido como Praça Pirâmide, por conta do bar que existiu”, recorda o empresário.
Para ornamentar o empreendimento, seu Valdeir decidiu construir uma estrutura em formato de pirâmide, revestida por azulejos, sobre a qual a água escorria continuamente, criando o efeito de uma cascata. A proposta chamou a atenção da população e se tornou um marco visual da região. O sucesso foi tão grande que a praça construída posteriormente pelo então prefeito Chiquilito Erse, oficialmente batizada como Praça das Crianças, acabou incorporando o nome popular já consagrado pelos moradores: Praça da Pirâmide.
Mais do que uma simples referência geográfica, a Pirâmide tornou-se um símbolo afetivo e cultural da zona sul, carregando consigo memórias de uma época em que o espaço representava encontro, diversão e pertencimento coletivo. Até hoje, mesmo diante do desgaste do tempo, o nome resiste na memória popular como expressão viva da história da comunidade.
Mais do que uma praça, o local representava um marco afetivo para moradores que cresceram frequentando o espaço em encontros familiares, atividades recreativas e eventos comunitários. Hoje, infelizmente, o cenário é de total descaso: estruturas desgastadas, bancos danificados, jardins que antes demonstravam diversidade e cuidado agora revelam sinais evidentes de abandono, formando uma paisagem que contrasta com a memória viva de quem conheceu seus tempos de auge. “Isso aqui revela a identidade do verdadeiro morador da zona sul, ou, como diz meu amigo Emerson Barbosa, do ‘Estado Independente da Zona Sul’, mas, infelizmente, hoje se encontra nessa situação de deterioração não apenas do espaço, mas da nossa identidade”, lamenta o pedagogo Anderfábio.
A fala resume o sentimento de muitos moradores que enxergam, no estado atual da Praça da Pirâmide, não apenas o descaso com um patrimônio público, mas também a ausência de políticas públicas voltadas à valorização da zona sul. Trata-se de uma região populosa, historicamente importante para o desenvolvimento urbano da cidade, mas que ainda enfrenta desigualdades na distribuição de investimentos e na manutenção de seus espaços coletivos.
Comércio afetado e problemas estruturais
Localizada entre a Avenida Jatuarana e as ruas Sucupira e Paulo Francis, a praça está cercada por estabelecimentos comerciais que convivem diariamente com o contraste entre a atividade econômica da região e o aspecto de deterioração do espaço público.
Para comerciantes e moradores, a precariedade da área compromete não apenas a paisagem urbana, mas também a valorização do entorno, já que fachadas e empreendimentos acabam destoando diante do cenário de abandono.
Os problemas estruturais, porém, vão além da aparência. Árvores do local necessitam de poda educativa e manutenção adequada, tanto por questões de segurança quanto de preservação ambiental. Outro ponto recorrente é a caixa d’água da Caerd, instalada na área, que constantemente apresenta vazamentos, causando transtornos a moradores, pedestres e comerciantes da região.
Memórias vivas em meio à deterioração
A combinação entre falta de manutenção paisagística, problemas hidráulicos e ausência de intervenções urbanas reforça a percepção de que a Praça da Pirâmide se tornou um símbolo não apenas do abandono físico, mas também da negligência administrativa enfrentada pela zona sul de Porto Velho.
“Recordo dessa pracinha quando eu era estudante da Escola Eduardo Lima e Silva. Meus amigos e eu sempre parávamos aqui para tomar refrigerante, conversar e paquerar os colegas que saíam da escola. Era um lugar vivo, cheio de movimento.Infelizmente, a situação em pleno ano de 2026 é bastante precária. Basta olhar para perceber que é um espaço sem qualquer cuidado, sem manutenção. Há anos assistimos à praça se deteriorar, como se estivesse esquecida, à espera de alguma ação do município ou até mesmo de algum vereador, mas não que viesse aqui apenas mostrar o descaso, pois tempo eles já tiveram para isso. O povo dessa parte da cidade quer ação, quer enxergar o mesmo carinho que as outras partes da cidade estão recebendo do poder público”, lamenta a moradora Dalva Barbosa.
O apelo por revitalização
A Praça da Pirâmide, portanto, ultrapassa sua dimensão física. Ela simboliza um território, uma memória social e uma identidade cultural que resiste, mesmo diante do abandono. Sua recuperação não é apenas uma demanda por infraestrutura, mas um gesto de reconhecimento à história e à dignidade dos moradores da zona sul de Porto Velho.
Enquanto a revitalização não chega, o espaço permanece como um retrato silencioso das prioridades desiguais da capital e da urgência de políticas públicas mais inclusivas e equilibradas para todas as regiões da cidade.
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Fonte: News Rondônia