Como a região mais biodiversa do planeta ainda luta para se colocar no mapa das grandes rotas turísticas mundiais? Essa pergunta perseguiu gestores, empreendedores e articuladores do turismo amazônico por décadas, e a resposta sempre apontava para o mesmo ponto cego: a ausência de uma identidade compartilhada, capaz de unir todos os estados da nossa floresta sob uma narrativa comum e legível para o mercado global.
Em outubro de 2025, essa lacuna foi preenchida com o lançamento oficial da Marca Amazônia, na 52ª ABAV Expo, no Rio de Janeiro. A Amazônia Legal Brasileira ganhou, pela primeira vez em sua história, uma marca oficial. Desenvolvida pela consultoria global FutureBrand, a mesma que assina as identidades de destinos como Peru e México, em parceria com a Embratur e as Rotas Amazônicas Integradas (RAI), a iniciativa unifica sob uma única linguagem visual os nove estados que compõem a Amazônia Legal: Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
O mais curioso dessa história é a forma como ela nasceu. A equipe criativa não começou por ideias abstratas. Não buscou símbolos genéricos de floresta ou papagaio. O caminho foi radicalmente diferente: usaram coordenadas geográficas reais e imagens de satélite para mapear as curvas dos rios da bacia amazônica, mais de 25 mil quilômetros de vias navegáveis. Foi nessas curvas, nas dobras do próprio Rio Amazonas e seus afluentes, que encontraram as letras do alfabeto. A tipografia não foi desenhada. Foi extraída do território.
O resultado é uma identidade que, no sentido mais preciso da palavra, não poderia existir em nenhum outro lugar do mundo: uma marca que carrega, em cada letra, a memória viva da maior floresta tropical do planeta.
Durante a WTM Latin America, realizada em abril de 2026, em São Paulo, o Superintendente de Turismo de Rondônia, Gilvan Pereira, resumiu bem o sentido da iniciativa: “a marca não é uma campanha. É uma plataforma de longo prazo, conectada a políticas de bioeconomia e ao desenvolvimento de produtos turísticos sustentáveis, sendo o Sebrae parceiro estratégico nessa construção.”
O aspecto que mais me chama a atenção, para quem atua no apoio aos pequenos negócios, é a criação do selo “Feito de Amazônia”, vinculado à identidade visual e destinado a produtos, serviços e experiências da região. Isso representa uma mudança importante para o empreendedor local. A pousada às margens do rio, o artesão que trabalha com sementes amazônicas, o guia de ecoturismo, o restaurante que serve pirarucu com tucupi e a produtora de cosméticos da floresta passam a contar com um ativo antes inacessível: uma marca de origem com reconhecimento internacional, já validada em 92 países, segundo relato do Superintendente Gilvan Pereira.
Rondônia ocupa uma posição estratégica nesse cenário. Estar no mapa geográfico da Amazônia, porém, não garante ocupar espaço no mapa do mercado turístico, e essa diferença ficou evidente para mim há um ano, também na WTM Latin America, em São Paulo.
Em um painel do Feel Brasil, coordenado pela Embratur, uma empreendedora apresentou seu equipamento turístico: o Jardim da Amazônia Lodge, uma pousada especializada em observação de aves, com posicionamento de mercado bem definido, narrativa consistente e visibilidade internacional. Para minha surpresa, o empreendimento não ficava na região Norte. Era do Mato Grosso.
Não se trata de crítica ao estado, que compartilha o bioma amazônico além do Pantanal e do Cerrado e tem toda a legitimidade para trabalhar essa identidade. O ponto de atenção é outro: se um estado que divide o bioma com outros está mais bem posicionado do que quem vive no coração da floresta, o desafio não está no território. Está no posicionamento.
Naquele painel, enquanto o equipamento reunia nome, história, produto e narrativa, muitos negócios da região Norte simplesmente não estavam presentes, não por falta de qualidade, mas por ausência de estrutura, visibilidade e acesso aos espaços onde se definem os rumos do setor.
A Rota das Amazônias Integradas, que conecta os estados da região, já foi formalizada dentro do Consórcio da Amazônia Legal. Isso significa que o turismo deixa de ser uma aposta isolada de cada estado e passa a ser um projeto conjunto, com governança, estratégia e promoção compartilhadas.
Para os empreendedores rondonienses, essa é uma janela de oportunidade real, e janelas não ficam abertas para sempre. Uma marca poderosa sem produtos turísticos estruturados é apenas estética. Quem vai atravessar as portas que a Marca Amazônia abre são guias capacitados, pousadas organizadas, roteiros bem desenhados e comunidades preparadas para receber visitantes.
É aqui que o papel do Sebrae se torna essencial: transformar a potência da marca em oportunidade concreta para os micros e pequenos negócios do setor. Capacitação, digitalização, acesso a mercados e formalização formam o conjunto de ações que converte uma identidade visual em geração de renda para quem vive e faz o turismo de Rondônia acontecer todos os dias.
A Amazônia finalmente tem um nome visual. Agora é hora de preencher essa marca com histórias reais, experiências autênticas e empreendedores prontos para contar quem somos para o mundo. Rondônia tem muito a dizer, e a Marca Amazônia nos deu o holofote que precisávamos.
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Fonte: News Rondônia