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A gente e o Agente por Moisés Selva Santiago

Num entardecer de domingo, com a família reunida no cinema assisti ao filme “O Agente Secreto” do competente Kleber Mendonça Filho. Mergulhei em cada cena. Andei pelas ruas recifenses daquela década de 1970. Revi Fuscas e Chevettes, Kombis e Opalas, o rei Capibaribe, Capiba e o frevo, mangaba e os temidos camburões. Ouvi sotaques e sons – tudo isso quase esquecido nesses mais de cinquenta anos. Quase. Esse resgate de memórias ultrapassou meu eu-recordativo (psicologia cognitiva de Kahneman) ao tempo em que realimentou a necessidade da memória coletiva (como estuda Halbwachs) porque, de fato, houve um Brasil difícil de se viver, e não se trata de marketing de nostalgia por um “Oscar”, ou de reminiscência de idosos.
Esse quase esquecimento é revertido pelo poder da multifacetada arte do cinema, ao refazer ambientes, sabores, cores, figurinos, personagens, diálogos e músicas. Isto revolve dentro da gente emoções atemporais, pois independentemente de ideologias, nós sabemos que há seres humanos maus e bons, cujas ações qualificamos de más ou boas (como diz Mauthner, em “O avesso das palavras”). Sequestro, tortura, abuso de poder, perseguição, estupro, amordaçamento da Justiça, expatriação forçada, assassinato e tantas outras formas de injustiças e violências fazem parte dessa lista de coisas más que naqueles anos foram impostas como cotidianas, ferindo pessoas e gerações, e quase não tinham fim. Quase.
No filme, com habilidade marcante, essa volta aos anos 1970 também revela uma sociedade apodrecida com camadas cancerígenas de racismo, feminicídio, homofobia, intolerância ao nordestino e matadores de aluguel. Um Brasil difícil de se viver, como disse, pois ninguém sabia se voltaria para casa após a aula ou o dia de trabalho. Um corte de cabelo, uma camiseta vermelha, uma ideia na faculdade, uma barba cheia, uma igreja que ajudasse os pobres, uma reunião no sindicato, até mesmo um jornalismo, um livro e uma canção que questionasse o sistema – tudo poderia ser usado contra todos. Enquanto isso, na calada (ou gritada?) da noite a terrível Perna Cabeluda quase camuflava o desaparecimento de tanta gente… Quase.
A noite passou. Infelizmente, ao amanhecer há interessados em tentar apagar a História, usando as redes sociais como multiplicadoras de desinformação. Debord (“A sociedade do espetáculo”) diz que quem profere desinformação é culpado, e quem nela crê é imbecil. Para o culpado, a solução é o fortalecimento diário do Estado Democrático de Direito. Para o imbecil, existe a chance de aprender mais, inclusive com a arte. Nós sobrevivemos àquela época e ainda estamos aqui, braços dados ou não, desejando muito que nossa amada pátria seja o melhor lugar do mundo para nós e nossos filhos e netos. Sem Perna Cabeluda. Sem impunidade. Sem intolerância. Sem esquecimento de nossa História – como nessa familiar e saudável relação de aprendizado entre a gente e o Agente.
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Fonte: News Rondônia

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