Vamos voltar um pouco do tempo. “Por que você decidiu ficar?”, é pergunta comum que me fazem quando eu falo sobre porque tomei a decisão de ficar, o que já entrou no 52º ano de minha vida rondoniense. Sempre digo que foi fundamental, a decisão da Fátima, com quem sou casado há mais de 52 anos. Em 1975, minha segunda vinda a Porto Velho, vim só e me hospedei de novembro até meados de dezembro no hotel Rodoviário, ali na João Goulart, atrás da “rodoviária do Walmir”. Ela veio no Natal daquele ano, trazendo filha Michelle, com pouco mais de ano e 3 meses.
No mesmo dia fomos dar uma volta na cidade e enquanto a atenção da filha ia para uma fonte em frente ao palácio Presidente Vargas, nos sentamos ali por perto e eu fiz um relatório: “Aqui não tem sorveteria, não tem pizzaria, luz elétrica falta sempre, qualquer chuva alaga a cidade, só tem uma TV, a Rondônia, que passa velhos programas, grande parte da cidade se abastece de “cacimbas” (postos amazonas), só tem uma emissora de rádio (Caiari), fui desfiando a ladainha, para ela entender dificuldades que iria encontrar.
Lembrei também um fato: ela nasceu, se criou, casou e teve a filha morando no menor bairro de Manaus, o “Beco do Macedo” (atual Nossa Senhora das Graças), onde tinha a mãe e irmãos, a tia mais querida, as primas que foram companheiras de escola enfim, sua vida social era ali em volta. Isso, em meu entendimento, deveria ser analisado.
Porto Velho 1976: Jornal A Tribuna, em tecnicolor Deixei para o fim um fato que quando ouvi na primeira vez fiquei intrigado. Eu vim contratado pelo jornal “A Tribuna” – 1ª edição a 29.1.1976, desde 2 de novembro anterior e nesse período nós estocávamos matérias sobre casos, causos e outros sobre a cidade e o Território, com segmentos os mais diversos, incluindo médicos. Falei: “O Território só tem um hospital (“São José” desativado quando inaugurou o “Base” em 1983). Telefonar para Manaus só no posto da telefônica o que era muito caro; não havia disponibilidade linhas e um aparelho de telefone custava mais que “os olhos da cara”.
E continuei: “Aqui é o seguinte: se alguém ficar doente, os melhores médicos são o “doutor” Cruzeiro (do Sul) e a “doutora” Varig”. Ouvi isso inclusive de médicos, um deles, Flávio Arruda, tratou e curou a Naiara, nossa segunda filha, então com menos de 1 ano, quando nossas esperanças tinham praticamente desaparecido.
Dali daquele passeio natalino fomos para a casa que tínhamos alugado, na João Goulart sub esquina da Carlos Gomes. (Lembram quando eu citei que quando chovia a cidade ficava alagada? Pois é.) Duas noites depois caiu um temporal imenso e acordamos com água à altura dos joelhos e tivemos de sair assim mesmo, sendo socorridos por uma família moradora das proximidades.
Da nossa porta ainda fotografei um “fusca” branco boiando na João Goulart e na mesma manhã saí e fiz outra foto, das casas alagadas de funcionários da construtora da BR-319, na então Avenida Kennedy (depois Jorge Teixeira).
O temporal também alagou as casas da vila da Gutierrez
Em duas ocasiões diferentes perguntaram qual o motivo da importância da dona Fátima. Simples, se depois do ouvir meu relato e de acordar com meio corpo dentro da lama ela decidisse voltar para Manaus, tenho certeza de que eu teria ido junto. () A 1ª das minhas “memórias rondonianas” estão em vários sites no dia 3.11.26
Fonte: Tribuna Popular
