A expansão do uso de drones na agricultura tem ampliado as possibilidades de aplicação de defensivos nas lavouras de Rondônia, mas também chama a atenção para os riscos ambientais quando a pulverização é realizada sem os cuidados necessários. Entre as principais preocupações estão a morte de abelhas, os prejuízos à polinização e os possíveis impactos sobre outros insetos, animais e organismos que fazem parte do equilíbrio dos ecossistemas.
As abelhas desempenham um papel fundamental na reprodução de diversas espécies vegetais e contribuem para a produtividade de diferentes culturas agrícolas. Por isso, a exposição desses insetos a determinados produtos químicos pode representar um problema que vai além das colmeias, atingindo também a biodiversidade e a própria produção de alimentos.
Como a pulverização pode afetar as abelhas?
O risco não está necessariamente no drone, mas no produto utilizado, na forma de aplicação e nas condições em que a operação é realizada. Quando as gotículas pulverizadas são carregadas pelo vento para fora da área prevista, ocorre o fenômeno conhecido como deriva.
Esse deslocamento pode levar resíduos de defensivos até áreas de vegetação, flores, fontes de água e colmeias próximas. As abelhas também podem entrar em contato com substâncias químicas ao visitar flores de lavouras tratadas, especialmente durante o período de floração.
Dependendo do produto e do nível de exposição, os efeitos podem incluir intoxicação e morte dos insetos. Outros polinizadores, como borboletas e diferentes espécies de abelhas nativas, também podem estar sujeitos a riscos.
Estudos técnicos da Embrapa destacam a deriva durante a pulverização e o contato com culturas tratadas como importantes vias de exposição das abelhas aos agrotóxicos.
Os impactos podem ir além das colmeias
A preocupação ambiental não se limita à apicultura. A aplicação inadequada pode atingir organismos que vivem no solo, insetos benéficos ao controle natural de pragas e animais que dependem de ambientes contaminados ou de recursos alimentares afetados pelos produtos.
Em regiões de grande biodiversidade, como Rondônia, a proteção de áreas de vegetação nativa, nascentes e cursos d’água merece atenção especial. A contaminação desses ambientes pode comprometer organismos aquáticos e terrestres, dependendo das características da substância utilizada e do grau de exposição.
Os efeitos não são iguais em todas as situações. O risco depende da toxicidade do produto, da dose, das condições meteorológicas, da distância entre a área pulverizada e os ambientes sensíveis e do cumprimento das recomendações técnicas.
O que diz a Idaron sobre o uso de drones em Rondônia?
A Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril de Rondônia (Idaron) publicou, em fevereiro de 2026, uma nota técnica com orientações para a aplicação de defensivos agrícolas por drones. O documento reforça a necessidade de planejamento, qualificação dos operadores, regularidade da atividade e adoção de medidas para reduzir os riscos ambientais.
Entre as recomendações estão a observação das condições climáticas, o planejamento das rotas de voo e a identificação de áreas sensíveis, como corpos d’água e locais onde existem colmeias.
A orientação técnica indica que as aplicações devem considerar temperatura inferior a 30 °C, umidade relativa do ar acima de 50% e vento entre 3 e 10 quilômetros por hora, sempre observando as exigências aplicáveis ao produto e à operação.
Durante a floração, a Idaron recomenda evitar os horários de maior atividade das abelhas, como a manhã e o início da tarde, dando preferência ao final do dia quando tecnicamente adequado. O órgão também destaca a importância de comunicar previamente os apicultores localizados em um raio de até três quilômetros, permitindo que adotem medidas de proteção para as colmeias.
As operações devem respeitar a legislação vigente, as recomendações da bula e as exigências de registro e habilitação dos responsáveis.
Tecnologia e preservação ambiental precisam caminhar juntas
O uso de drones pode proporcionar precisão e facilitar o acesso a determinadas áreas agrícolas. Entretanto, esses benefícios dependem de planejamento e responsabilidade técnica. Uma aplicação mal executada pode comprometer áreas que não deveriam receber o produto, inclusive fora dos limites da propriedade rural.
Por isso, especialistas e órgãos de fiscalização reforçam a importância de avaliar a necessidade da aplicação, escolher produtos adequados, calibrar os equipamentos e observar as condições do tempo. O diálogo entre produtores, operadores e criadores de abelhas também é uma medida importante para prevenir ocorrências.
Em Rondônia, onde a agricultura convive com uma rica diversidade de espécies e ambientes naturais, o desafio é conciliar a produtividade no campo com a conservação dos polinizadores e da fauna local.
A proteção das abelhas não é apenas uma preocupação ambiental: está diretamente relacionada à manutenção da biodiversidade e ao equilíbrio dos sistemas agrícolas. Garantir que a tecnologia seja utilizada dentro das normas e das boas práticas é fundamental para reduzir riscos e evitar que o avanço da produção provoque danos desnecessários ao meio ambiente.
Fontes: Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril de Rondônia (Idaron) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Texto: Luciana Küster Kipert
Fonte: Tribuna Popular
