Coluna Ponto Crítico – Por Felipe Corona
Em gravação divulgada por “colega” de corporação, parlamentar disse que novo chefe da Polícia Civil é indicação direta dele; Marcos Rocha ficou em silêncio, mas viajando o planeta gastando dinheiro público…
Manda quem pode
Um vazamento de áudio no final de agosto abriu uma fresta nada confortável nos bastidores da política rondoniense. A gravação expôs diálogos que indicariam interferência de agentes políticos na estrutura do (des)governo Marcos Rocha, com direito a disputa por cargos e suposto uso da Polícia Civil como instrumento de pressão contra adversários.
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No centro da conversa apareceu o deputado estadual e candidato à reeleição Ribeiro do Sinpol (PRD), também chamado de “RB”. No áudio, ele atribui a si próprio participação direta na mudança do comando da Polícia Civil de Rondônia. Ele comemorou a saída do então diretor-geral Samir Abboud e reivindica a indicação de Jeremias Mendes para assumir o órgão.
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“Jeremias é meu. É minha a indicação”, afirma o parlamentar na gravação. A declaração, por si só, já seria suficientemente constrangedora para qualquer instituição que pretenda demonstrar autonomia.
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Mas o diálogo avança e descreve aquilo que seria uma espécie de pacote completo da influência política: troca de comando, atendimento a transferências de policiais, nomeação de pessoas indicadas e atuação contra alvos previamente escolhidos. Aparentemente, o balcão de negócios não trabalharia com itens separados.
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Segundo o deputado, a chegada de Jeremias à direção-geral teria sido acompanhada de um acordo envolvendo decisões administrativas e ações policiais. O parlamentar menciona pedidos relacionados à movimentação de servidores, à indicação de uma Ana Cláudia para um instituto e ao endurecimento contra Júnior Gonçalves, Sérgio Gonçalves e Marcelo Cruz.
Prender e fod3r
“Esse foi o acordo que a gente fez: Jeremias, eu quero que você cuide dos policiais, aceite as minhas transferências e coloque a Ana Cláudia no instituto. E quero que você prenda mesmo, faça pra f#der mesmo os caras que são vagabundos, que é o Júnior, o Sérgio e o Marcelo Cruz”, declara no áudio.
Prender e fod3r 2
O teor da conversa levanta uma questão grave: se verdadeiro e contextualizado como aparenta, o diálogo não descreve apenas articulação política para preencher cargos de confiança. Ele sugere uma tentativa de colocar a estrutura policial no tabuleiro das disputas pelo poder estadual. Como se delegacias, investigações e decisões de pessoal fossem peças disponíveis para quem tivesse influência suficiente nos corredores do governo.
Inimigos íntimos
As referências a Júnior Gonçalves (ex-chefe da Casa Civil) e Sérgio Gonçalves, vice-governador, reforçam a suspeita de que o enfraquecimento de adversários faria parte de uma “luta silenciosa”. Silenciosa, talvez, até alguém apertar o botão de gravar. A partir daí, aquilo que deveria permanecer acomodado nos bastidores passou a produzir barulho público e sério desgaste institucional.
Críticas
O vazamento também provocou reação entre integrantes da segurança pública e lideranças políticas. Wagner Pereira Sodré, conhecido como “Waguinho PC”, policial civil lotado em Cacoal, empresário e candidato a deputado estadual pelo Partido Novo, compartilhou o conteúdo em grupos de comunicação da corporação e criticou a suposta interferência política na instituição.
Críticas 2
“Esse é o deputado que diz trocar diretor-geral para que aceite transferência de policiais, conforme as palavras dele próprio. E diz pretender informar amigos políticos usando a estrutura do Estado. Põe pra cima que não tenho medo. Não me ataquem que não tô atacando ninguém. (…) Se vierem me atacar, vai ter muita merda no ventilador”, afirmou o policial e candidato.
Eu mando
A reação mostra que o caso ultrapassa a habitual guerra de versões entre grupos políticos. O que está em discussão é a credibilidade da Polícia Civil e a autonomia de uma instituição que não pode funcionar como extensão de gabinete parlamentar, instrumento de vingança ou prêmio entregue a aliados.
Foto: Montagem/Portal 364
Eu mando 2
Quando um político anuncia que o diretor-geral “é seu”, a escolha das palavras já revela uma preocupante noção de propriedade sobre aquilo que deveria pertencer ao Estado e servir à sociedade.
Eu mando 3
As gravações lançam, portanto, uma sombra sobre as mudanças promovidas no comando da segurança pública durante a gestão de Marcos Rocha. Elas não comprovam, isoladamente, todas as acusações levantadas, mas apresentam elementos suficientemente graves para exigir esclarecimentos objetivos, apuração independente e transparência.
Eu mando 4
Essas são três providências geralmente muito celebradas em discursos oficiais e nem sempre recebidas com o mesmo entusiasmo quando batem à porta do poder.
Tática do gato morto
Até o fechamento desta coluna, o Governo de Rondônia, a Direção-Geral da Polícia Civil e o parlamentar mencionado não haviam se pronunciado formalmente sobre o conteúdo dos áudios nem sobre os supostos acordos citados na conversa. O espaço permanece aberto para a manifestação de todos os envolvidos. Afinal, diante de uma gravação desse calibre, o silêncio também acaba ocupando lugar de destaque.
Explicações
No dia após a divulgação do áudio, o diretor-geral Jeremias Mendes teria tentado explicar a situação a amigos, pessoas próximas e profissionais da imprensa. O esforço dá uma boa medida do estrago provocado pelo vazamento: quando o comandante de uma instituição policial precisa circular pelos bastidores para assegurar que não assumiu o cargo com a missão de perseguir adversários, é sinal de que o problema já deixou de ser apenas político.
Explicações 2
Segundo relatos que circulam nos bastidores, Jeremias teria afirmado que não chegou ao comando da Polícia Civil para atender aos interesses eleitorais ou particulares de Ribeiro do Sinpol. A tentativa seria afastar qualquer interpretação de que sua atuação estivesse subordinada aos desejos do deputado ou orientada contra adversários políticos do parlamentar.
Reforço
Até o momento, é importante destacar, não foram apresentados elementos públicos que comprovem a utilização da estrutura policial para perseguir opositores. A acusação permanece no campo das alegações. Isso, porém, não elimina a necessidade de esclarecimentos oficiais, sobretudo porquê as declarações atribuídas ao deputado colocaram o comando da instituição no centro de uma crise que ultrapassa, e muito, os limites da disputa eleitoral.
Reforço 2
Se a nomeação ocorreu exclusivamente por critérios técnicos, como se espera de uma função dessa importância, cabe ao Governo de Rondônia explicar esses critérios com clareza. Se não houve acordo político, interferência em transferências ou compromisso envolvendo decisões internas, a direção da Polícia Civil também tem a oportunidade de negar tudo formalmente.
Quem cala…
Explicações reservadas a amigos e interlocutores podem aliviar conversas particulares, mas dificilmente encerram uma crise institucional. Enquanto o vídeo se espalhava e alimentava questionamentos, o governador Marcos Rocha (PSD) permanece em silêncio. Até o momento, ele não se manifestou publicamente sobre as declarações divulgadas.
Consente
Afinal, Marcos Rocha tem se preocupado mais com as viagens nacionais e internacionais, além de verificar o saldo da conta para ver se as diárias pagas com dinheiro público foram devidamente depositadas. Até o final do ano, ele já emendou uma belíssima programação de visitas com seu séquito para aproveitarem o que sobrar nos cofres públicos.
Contudo, porém…
O silêncio chama atenção porque a Polícia Civil integra a estrutura do Governo de Rondônia. Portanto, qualquer suspeita de interferência política em seu comando não é um problema restrito ao diretor-geral ou ao deputado mencionado na gravação. A questão alcança diretamente o Palácio Rio Madeira e a autoridade responsável por nomear os ocupantes dos principais cargos estaduais. No caso, o ex-governador em exercício ou quem não esteja viajando.
Sem notas
Também não houve manifestação oficial da direção da Polícia Civil nem do Governo de Rondônia. Num caso que exige respostas claras, instalou-se aquela conhecida estratégia política de esperar a poeira baixar. Embora, desta vez, a poeira pareça ter vindo acompanhada de pólvora, nitroglicerina, áudio, vídeo e nomes.
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A falta de posicionamento mantém abertas as perguntas sobre as circunstâncias da mudança no comando da instituição e sobre as afirmações feitas por Ribeiro do Sinpol. O governo pode até optar pelo silêncio, mas não consegue impedir que a ausência de respostas amplie as dúvidas.
Na pressão
A repercussão atingiu diretamente a imagem política de Ribeiro do Sinpol. À época, o deputado teria sido pressionado a apresentar explicações a colegas da Assembleia Legislativa, eleitores, integrantes de sua base, aliados, jornalistas e autoridades.
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Naquela época, o parlamentar também teria se reunido com membros da cúpula de seu gabinete e de sua campanha para avaliar os efeitos da crise e discutir uma estratégia de resposta. Em outras palavras, o áudio parece ter obrigado a campanha a trocar temporariamente o planejamento eleitoral pelo controle de danos.
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O momento é especialmente delicado porque Ribeiro está em plena movimentação para continuar na Assembleia Legislativa. E poucas coisas combinam menos com uma campanha do que a necessidade de explicar declarações que sugerem influência sobre o comando da Polícia Civil, corporação que ele ainda faz parte.
Futuro obscuro
A possibilidade de divulgação de novos trechos da conversa entre Ribeiro e Waguinho aumenta a tensão nos bastidores. Informações atribuídas a pessoas próximas ao caso indicam que outras partes do diálogo poderão ser reveladas em breve.
Futuro obscuro 2
Caso isso aconteça, as novas gravações poderão ampliar a repercussão ou oferecer elementos capazes de esclarecer, contextualizar ou contradizer o material já divulgado. Tudo dependerá do conteúdo e, principalmente, de sua autenticidade e integridade.
Futuro obscuro 3
Por enquanto, o cenário permanece aberto. Ribeiro ainda terá que explicar as declarações que lhe são atribuídas, apesar da tática de gato morto ou do “não é comigo”. O comando da Polícia Civil poderá ser cobrado a esclarecer como ocorreu a chegada de Jeremias ao cargo e qual seria sua relação com as decisões mencionadas na gravação.
Futuro obscuro 4
A expectativa por novos áudios acrescenta um ingrediente incômodo à crise: ninguém sabe exatamente o que ainda pode surgir. E, na política, poucas coisas produzem mais nervosismo do que uma gravação divulgada pela metade.
Futuro obscuro 5
O episódio ocorre justamente quando a disputa política em Rondônia começa a ir para a reta final do primeiro turno. Qualquer associação entre uma candidatura e a suposta utilização política de uma instituição pública possui potencial para provocar desgaste eleitoral expressivo, especialmente para o candidato da situação, Adailton Fúria (PSD).
Respingos
Por isso, o vídeo divulgado por Waguinho passou a ser tratado nos bastidores como um dos episódios mais delicados envolvendo Ribeiro do Sinpol até agora. O conteúdo atinge o discurso do parlamentar, pressiona sua campanha e levanta questionamentos sobre a relação entre influência política e decisões administrativas dentro da Polícia Civil.
Respingos 2
A repercussão também alcança Marcos Rocha. O governador poderá ser cobrado a esclarecer se tinha conhecimento das declarações atribuídas ao deputado e quais critérios foram utilizados nas mudanças promovidas na direção da instituição. Até o momento, ninguém perguntou para o ex-prefeito de Cacoal e candidato ao governo o que ele acha dessa situação.
Respingos 3
O que não depende de interpretação é o tamanho da repercussão. O vídeo abriu uma crise política e institucional que não desaparecerá apenas porque os principais envolvidos decidiram permanecer em silêncio. E, se novos trechos vierem a público, a crise poderá ganhar outros personagens, novas acusações e uma pressão ainda maior sobre Ribeiro do Sinpol, a direção da Polícia Civil, o Governo de Rondônia e até para Adailton Fúria.
*Parte desta coluna foi escrita com informações publicadas pelo site Portal 364, no final de de agosto de 2026.
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Fonte: Tribuna Popular