Se Liga Rondônia
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RONDÔNIA ENTRE A IDEOLOGIA E A GESTÃO

A eleição para o Governo de Rondônia em 2026 começa a ganhar contornos de uma disputa que vai além da tradicional polarização partidária. O eleitor poderá ser chamado a escolher não apenas entre projetos políticos, mas também entre trajetórias, estilos de liderança e experiências distintas de atuação pública.

A primeira pesquisa Quaest sobre a disputa, divulgada em 25 de agosto, mostra Marcos Rogério (PL) com 24% das intenções de voto e Adailton Fúria (PSD) com 21%. Como a margem de erro é de três pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados no cenário estimulado de primeiro turno.

Há, porém, outro dado que merece atenção: na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados, Fúria aparece com 12%, contra 11% de Marcos Rogério. Ao mesmo tempo, 22% dos entrevistados permanecem indecisos no cenário estimulado — sinal de que a eleição ainda está aberta.

MARCOS ROGÉRIO: UMA TRAJETÓRIA POLÍTICA EM TRANSFORMAÇÃO

Marcos Rogério construiu sua carreira política inicialmente no PDT. Foi deputado federal pelo partido e exerceu funções de liderança na Câmara dos Deputados. Em 2016, passou ao DEM e, posteriormente, migrou para o PL, partido pelo qual se tornou senador e uma das principais lideranças políticas de oposição e de identificação com o bolsonarismo em Rondônia.

Em 2022, disputou o Governo de Rondônia e chegou ao segundo turno contra o então governador Marcos Rocha. No primeiro turno, obteve 36,89% dos votos válidos e, no segundo, 47,53%, sendo derrotado por Marcos Rocha.

Nada disso precisa ser interpretado automaticamente como incoerência. Mudanças partidárias fazem parte da política brasileira.

Mas a trajetória é um fato político. E o eleitor tem o direito de observá-la e perguntar:

O que mudou ao longo do caminho e o que permaneceu?

E ONDE ENTRA FÚRIA?

É justamente aqui que a disputa ganha uma dimensão interessante.

Nos últimos meses, setores do debate político passaram a tentar enquadrar Adailton Fúria em rótulos ideológicos, inclusive apresentando-o como um político de esquerda.

Mas existe uma maneira simples de confrontar um rótulo:

olhar para a história.

Fúria iniciou sua trajetória política como vereador de Cacoal, foi deputado estadual e chegou à Prefeitura.

Em 2020, foi eleito prefeito com 25.791 votos, correspondentes a 61,04% dos votos válidos.

Em 2024, foi reeleito com 40.270 votos — 83,16% dos votos válidos.

Esse resultado não significa, por si só, que todos os eleitores de Fúria compartilhem de sua visão política. Significa, entretanto, que sua administração foi submetida diretamente ao julgamento da população de Cacoal e recebeu uma votação expressiva para a continuidade do projeto.

É difícil compreender uma votação dessa dimensão apenas pela lógica dos rótulos.

A PANDEMIA: QUANDO GOVERNAR SIGNIFICOU DECIDIR

Um dos momentos mais exigentes da primeira gestão de Fúria ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando municípios de todo o país enfrentavam pressão sobre o sistema de saúde e decisões urgentes precisavam ser tomadas.

Em Cacoal, a Prefeitura, em parceria com o Governo de Rondônia e com apoio da comunidade, estruturou um Hospital de Campanha para receber pacientes com Covid-19.

A iniciativa partiu de uma solicitação do prefeito ao Governo do Estado e permitiu a organização de uma estrutura com leitos e atendimento específico, ajudando a desafogar o Hospital Regional de Cacoal e o Heuro.

Mais do que atribuir a uma única pessoa um resultado que envolveu profissionais de saúde, Estado, município, empresários e comunidade, o episódio revela uma característica importante da gestão pública:

em momentos de crise, decisões precisam sair do papel e transformar-se em estrutura, atendimento e resposta.

Foi um período em que Fúria também enfrentou críticas, dificuldades e decisões controversas. Concordar ou discordar de suas escolhas faz parte do debate democrático.

O ponto central é que ele estava no Executivo e precisou assumir a responsabilidade de governar em uma das maiores crises sanitárias da história recente.

A DIFERENÇA ENTRE DISCURSO E EXPERIÊNCIA EXECUTIVA

É aqui que, na minha avaliação, a eleição começa a ficar especialmente interessante.

Marcos Rogério possui uma experiência parlamentar relevante, com passagem pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, além de forte presença no debate político nacional.

Fúria possui uma experiência diferente: a do Executivo municipal.

E existe uma diferença importante entre legislar e administrar.

Governar é acordar diante de um problema e precisar encontrar uma solução.

É administrar orçamento.

É contratar.

É executar obras.

É organizar serviços.

É negociar com vereadores.

É dialogar com empresários.

É responder aos órgãos de controle.

É enfrentar crises.

E, sobretudo, é lidar diariamente com as necessidades da população.

A experiência de Fúria no Executivo foi construída em Cacoal e posteriormente submetida novamente às urnas.

O resultado de 2024 — 83,16% dos votos válidos — é um dado político que merece ser considerado, ainda que não possa ser confundido automaticamente com uma avaliação absoluta de todas as áreas da administração.

O RÓTULO DE “ESQUERDA” RESISTE AOS FATOS?

Essa é uma pergunta que deixo para o eleitor.

Se Fúria deve ser definido apenas pelo rótulo que seus adversários procuram lhe atribuir, então é preciso explicar como esse mesmo político construiu uma trajetória eleitoral que passou pela Câmara Municipal, Assembleia Legislativa e Prefeitura de Cacoal e chegou a uma reeleição com 83,16% dos votos válidos.

O eleitor não é obrigado a aceitar o enquadramento produzido por nenhuma campanha.

Pode olhar para a história.

Quem foi?O que fez?Como administrou?Quais foram seus acertos?Quais foram seus erros?E qual foi a resposta das urnas?

A PESQUISA MUDOU O DEBATE

A pesquisa Quaest não mostra uma eleição ganha — e seria um erro interpretá-la dessa maneira.

Marcos Rogério aparece numericamente à frente no primeiro turno, com 24%, enquanto Fúria tem 21%. A margem de erro de três pontos percentuais coloca os dois em empate técnico.

Na pesquisa espontânea, Fúria aparece com 12%, contra 11% de Marcos Rogério. No cenário estimulado, 22% dos entrevistados estão indecisos.

Há, portanto, muito caminho pela frente.

A pesquisa também mostra uma realidade que não pode ser ignorada: em um eventual segundo turno entre Marcos Rogério e Fúria, o levantamento registra 40% para Rogério e 29% para Fúria.

Isso significa que, embora a disputa de primeiro turno esteja tecnicamente empatada, Fúria ainda teria um desafio importante para ampliar sua competitividade em uma eventual segunda etapa.

Esse dado, na minha leitura, torna a disputa ainda mais interessante.

FÚRIA CONSEGUIRÁ TRANSFORMAR CACOAL EM UM PROJETO PARA RONDÔNIA?

Esta talvez seja a principal pergunta que a candidatura de Fúria precisa responder.

Governar Cacoal é diferente de governar Rondônia.

O Estado possui 52 municípios, realidades econômicas distintas e desafios regionais que vão muito além da experiência de uma cidade.

O verdadeiro teste de Fúria será mostrar que aquilo que funcionou em Cacoal pode ser transformado em um projeto estadual.

Saúde.Infraestrutura.Agronegócio.Indústria.Educação.Segurança.Turismo.Regularização fundiária.Desenvolvimento regional.Relação com os municípios.

Se conseguir traduzir sua experiência municipal em propostas concretas para todo o Estado, sua candidatura poderá ganhar uma dimensão muito maior.

A ELEIÇÃO NÃO PRECISA SER BOLSONARO CONTRA LULA

Talvez este seja um dos pontos mais importantes da eleição estadual.

Uma eleição para governador não precisa ser simplesmente uma repetição da disputa presidencial.

O eleitor pode ser conservador e votar pensando em gestão.

Pode apoiar Bolsonaro e escolher outro governador.

Pode defender o agronegócio e exigir eficiência na saúde pública.

Pode ser religioso e querer um governo moderno.

Pode ser de direita e escolher um candidato que não seja do PL.

A política real é mais complexa do que as etiquetas partidárias.

MINHA LEITURA

Como comentarista político — e deixando claro que, nesta eleição, tenho preferência por Adailton Fúria — vejo uma disputa que começa a sair do campo exclusivamente ideológico e entrar no campo da comparação de trajetórias.

Marcos Rogério tem sua história.

Fúria tem a sua.

Um construiu uma carreira parlamentar, passou por diferentes legendas e hoje possui forte identidade política nacional.

O outro construiu sua trajetória essencialmente em Rondônia, passando pelo Legislativo municipal, pela Assembleia Legislativa e pelo Executivo de Cacoal.

Um apresenta forte experiência parlamentar e presença no debate nacional.

O outro apresenta experiência executiva municipal, submetida diretamente ao julgamento do eleitor.

E existe uma pergunta que considero inevitável:

“Quando chegar a hora de escolher quem vai administrar Rondônia, o eleitor vai votar apenas em uma identidade política ou também vai olhar para quem já demonstrou capacidade de administrar?”

A resposta pertence ao eleitor.

Mas uma coisa a pesquisa de 25 de agosto deixou clara:

Adailton Fúria deixou de ser apenas uma liderança de Cacoal e passou a ocupar um espaço competitivo na disputa pelo Governo de Rondônia.

A diferença de três pontos para Marcos Rogério, dentro da margem de erro, mostra uma disputa aberta no primeiro turno. Ao mesmo tempo, o resultado do segundo turno simulado mostra que ainda existe uma distância importante a ser percorrida.

O maior desafio de Fúria, daqui para frente, talvez seja transformar aquilo que construiu em Cacoal em uma mensagem capaz de convencer todo o Estado.

Menos rótulo, mais resultado.

Menos ideologia como identidade, mais gestão como compromisso.

Menos promessa de quem pretende governar, mais experiência de quem já governou.

Rondônia decidirá.

E talvez, desta vez, a pergunta não seja apenas:

“De que lado você está?”

Mas:

“Quem você acredita que está preparado para governar?”

Eleutério Baptista GonçalvesComentarista político

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Fonte: RO ACONTECE

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