APOSTA
Há alguns meses, esta Resenha Política escreveu que jamais embarcou na tese de que o PL elegeria, com relativa facilidade, os dois senadores de Rondônia. Não por torcida, simpatia ou antipatia, mas porque campanha eleitoral não se mede pelo barulho das redes sociais nem pelo entusiasmo das torcidas organizadas. Mede-se por variáveis que raramente chegam ao conhecimento do público: levantamentos internos, cruzamentos estatísticos, rejeições silenciosas e, sobretudo, pelo comportamento daquele eleitor que ainda guarda o voto no bolso à espera dos acontecimentos.
DADOS
Os números reservados a sete chaves pelos partidos costumam revelar um cenário muito menos confortável do que aquele exibido nos discursos inflamados dos palanques. E há um dado que continua chamando atenção: o volume expressivo de eleitores indecisos e daqueles que admitem mudar de opinião durante a campanha. Em eleições majoritárias, essa parcela costuma ser mais decisiva do que os militantes que passam o dia inteiro brigando na internet.
FORÇA
Foi também por essa leitura que a coluna antecipou, ainda no início da pré-campanha, que Fernando Máximo, apesar da aparente tranquilidade com que navegava no eleitorado bolsonarista, inevitavelmente encontraria águas mais revoltas quando a disputa começasse de verdade. Campanha é como maré: na praia, todos parecem excelentes nadadores; o problema surge quando o mar resolve mostrar sua força.
FINAL
A lembrança de Mariana Carvalho, em 2022, não é gratuita. Liderou pesquisas durante boa parte do percurso e chegou à reta final cercada de favoritismo. A urna, entretanto, resolveu escrever outra história. Pesquisas fotografam o momento; eleições produzem filmes. E filmes costumam ter finais que nem sempre agradam aos protagonistas.
RAIZ
Como se as dificuldades naturais de uma campanha já não bastassem, Fernando Máximo divide espaço com um concorrente que fez do bolsonarismo mais raiz não apenas uma identidade política, mas uma marca pessoal. Bruno Bolsonaro Scheid incorporou o sobrenome eleitoral, construiu sua militância nesse segmento e dificilmente abrirá mão desse patrimônio sem reagir.
TENSÃO
O episódio envolvendo a disputa pelo número de campanha talvez tenha parecido, para os desavisados, uma divergência burocrática. Não foi. Representou apenas a primeira rachadura visível de uma tensão que já existia nos bastidores. A decisão da convenção, ao assegurar o número desejado por Bruno, encerrou a discussão administrativa, mas está longe de ter encerrado a disputa política.
FUMAÇA
Conflitos internos possuem uma curiosa vocação para permanecer escondidos até que deixem de caber debaixo do tapete. Depois disso, espalham-se com velocidade impressionante. No PL, há quem insista em classificar qualquer divergência como invenção da imprensa. É compreensível. Partidos raramente admitem incêndios enquanto ainda há fumaça. O problema é que a fumaça costuma denunciar o fogo.
CRISE
Nos bastidores, multiplicam-se conversas, acomodações, insatisfações e movimentos de reposicionamento. Há relatos de mudanças em setores considerados estratégicos da campanha e de um intenso esforço para conter desgastes antes que eles se transformem em crise aberta. Quem conhece campanhas sabe que, muitas vezes, o problema não é o adversário do outro partido, mas o companheiro sentado na cadeira ao lado.
HIPÓTESE
Esta coluna mantém outra percepção, construída menos por bola de cristal e mais por muitos anos acompanhando campanhas eleitorais: Bruno Bolsonaro Scheid pode chegar ao fim de setembro ocupando uma posição eleitoral superior àquela que hoje pertence ao favorito do próprio partido. Trata-se de uma hipótese, não de uma profecia. Intuição política não substitui a urna, assim como convicção não equivale a resultado.
ORÁCULOS
Até porque, em ano eleitoral, surgem profetas em quantidade suficiente para dispensar institutos de pesquisa. Todos conhecem antecipadamente o vencedor, desde que a previsão seja feita depois da apuração. A vantagem dos verdadeiros profetas é que nunca precisam explicar por que erraram. Já a urna, essa velha senhora sem vocação para agradar analistas ou militantes, continua insistindo em desmentir certezas com uma serenidade quase debochada.
PAPO
Campanhas eleitorais costumam vender a imagem da convicção inabalável. Nos bastidores, porém, a realidade é menos épica e mais pragmática: quando o barco balança, troca-se o timoneiro antes que a água alcance o convés. Foi exatamente essa leitura que ficou da conversa desta coluna com o senador Marcos Rogério, candidato do PL ao Governo de Rondônia.
RECEITA
Segundo ele, a mudança no comando do marketing decorreu de um desalinhamento entre a equipe digital anterior e a realidade rondoniense. Traduzindo do idioma marqueteiro para o português corrente: descobriram que Rondônia não cabe em planilhas produzidas a milhares de quilômetros de distância. Administrar uma campanha regional por controle remoto é acreditar que o mesmo receituário eleitoral serve indistintamente do Oiapoque ao Chuí – uma heresia estratégica.
LIMITES
A aposta agora recai sobre Marcelo Vitorino, conhecedor do terreno e responsável pelo marketing da campanha de Mariana Carvalho. Conhecer a praça, entretanto, não equivale a possuir a chave da vitória. Marketing corrige rota; não fabrica carisma nem elimina rejeição por decreto.
RUMO
Embora aliados celebrem pesquisas recentemente divulgadas, a substituição da equipe poucos dias após a convenção transmite outra mensagem. Campanhas satisfeitas com seus indicadores dificilmente promovem reformas estruturais antes mesmo de ganhar velocidade. Quando se muda tanto em tão pouco tempo, é porque algum diagnóstico interno identificou ruídos que os discursos públicos preferem silenciar.
ATRITOS
Marcos Rogério também tratou de minimizar os comentários envolvendo Bruno Scheid e o senador Jaime Bagattoli. Admitiu divergências quanto à composição numérica da campanha, mas assegurou que o episódio foi superado. Negou atritos políticos com Bagattoli, ainda que tenha revelado não ter conseguido falar com o aliado na véspera da entrevista – prometendo fazê-lo no dia seguinte.
ENGRENAGEM
No fim das contas, a impressão é de que o PL percebeu, em menos de uma semana, que sua engrenagem precisava de ajustes urgentes. O objetivo é evidente: reduzir a rejeição, ampliar alianças e construir uma ponte para um eventual segundo turno, justamente onde muitos enxergam o maior desafio eleitoral do senador. Trocar peças durante a corrida faz parte da política.
TETO
O que desperta atenção é outro detalhe: o desempenho de Marcos Rogério continua orbitando, até aqui, o mesmo patamar obtido no primeiro turno de 2022. Se esse percentual representa apenas um ponto de partida ou o teto de sua candidatura, será uma resposta que nem o melhor marqueteiro conseguirá escrever sozinho.
CENTRALIDADE
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Mas o senador também precisa cuidar do próprio entorno. Há pessoas falando em seu nome sem qualquer delegação política e outras extrapolando funções na tentativa permanente de agradar o chefe. Campanha em que todos falam, ninguém coordena e poucos se entendem costuma produzir mais ruído do que votos. Se já existe a crítica de soberba, somada à falta de comando, de controle e de centralidade nas decisões, não adianta apenas trocar peças.
NAUFRÁGIO
É preciso enfrentar os problemas estruturais. Afinal, um navio não afunda porque mudou o comandante da banda; afunda quando a água continua entrando pelo casco e a tripulação insiste em discutir quem tocará a última música.
PRAZO
Na política, promessas têm prazo de validade menor que iogurte esquecido na geladeira. Algumas sequer chegam a nascer. Outras morrem no trajeto entre o cafezinho e a convenção partidária. Em Rondônia, uma dessas promessas parece ter encontrado um destino ainda mais melancólico: virou nota de esclarecimento.
NOTA
Bastou o petista Edson Silveira, integrante do diretório estadual do PT, publicar o artigo “Acordo político não é cheque em branco”, cobrando do MDB o apoio à candidatura de Expedito Neto ao Governo, para o diretório emedebista reagir com a velocidade incomum de quem percebeu que alguém estava vendendo um imóvel sem consultar o proprietário.
ENGANADOS
A resposta veio em forma de nota pública, curta, objetiva e devastadora. Em síntese, o MDB afirmou que não existia acordo formal algum para marchar ao lado do PT nas eleições estaduais. Segundo o partido, não houve reunião deliberativa sobre o tema, a proposta jamais integrou a pauta da convenção e, naturalmente, também não foi submetida aos convencionais. Traduzindo para o português político: venderam um casamento antes mesmo do pedido de namoro.
ENCENAÇÃO
É nesse ponto que a política exibe seu lado mais teatral. Se havia uma costura, ela não resistiu à luz do palco. Se havia um compromisso, faltou combinar com os atores principais. E, convenhamos, convenção partidária costuma ser um lugar inconveniente para quem prefere resolver tudo nos bastidores.
EFEITOS
A interpretação que inevitavelmente surge é que o senador Confúcio Moura apostava em sua capacidade de conduzir o MDB para uma composição com o PT, possivelmente dentro de um entendimento mais amplo envolvendo sua própria candidatura ao Senado. A nota do partido, entretanto, indica que sua influência já não produz os mesmos efeitos de outros tempos.
DERROTA
Durante muitos anos, Confúcio foi reconhecido justamente pela habilidade de mover peças discretamente, retirando obstáculos sem fazer barulho. Era um enxadrista da política regional, desses que venciam partidas antes que os adversários percebessem onde estava o xeque. Só que o tabuleiro mudou. E, como todo enxadrista sabe, há um momento em que as peças deixam de obedecer ao jogador.
RECIPROCIDADE
A direção nacional do PT enxerga em Confúcio um nome estratégico para o Senado e, naturalmente, espera reciprocidade do MDB em Rondônia. O problema é que reciprocidade não se decreta. Muito menos quando o próprio partido demonstra, por meio de uma nota pública, que a palavra final não pertence mais a um único cacique.
CAPTULAÇÃO
Hoje parece mais provável uma intervenção da direção nacional petista para reorganizar seus próprios planos eleitorais do que assistir ao MDB rondoniense desfilar, em fila indiana, atrás de uma decisão tomada fora de sua convenção.
EUFEMISMO
E há um detalhe quase folclórico nessa história. O artigo de Edson Silveira escolheu como título a expressão “cheque em branco”. Um belo eufemismo, sem dúvida. Mas convenhamos: a expressão parece ter sido resgatada de um museu da retórica política. Num tempo de Pix, QR Code, biometria facial e inteligência artificial, falar em “cheque em branco” desperta a mesma sensação de encontrar uma máquina de escrever funcionando numa repartição pública.
VELHOS
Talvez esse seja o retrato mais fiel do episódio. Enquanto o mundo discute algoritmos, campanhas digitais e comunicação instantânea, parte da esquerda rondoniense ainda parece escrever manifestos com tinta de mimeógrafo. Não por acaso, às vezes a política local transmite a impressão de que o futuro chegou… mas alguns personagens insistem em permanecer esperando o próximo telegrama.
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Fonte: News Rondônia