Saúde mental precisa deixar de ser tabu
A saúde mental tornou-se um dos principais desafios da sociedade contemporânea, especialmente no ambiente de trabalho. Durante participação no programa Conexão RH, a psicóloga Rita Borges destacou que transtornos como ansiedade, burnout, transtorno afetivo bipolar e transtorno de personalidade borderline afetam milhares de pessoas e ainda são cercados por preconceitos, desinformação e medo de buscar ajuda profissional.
Segundo a especialista, muitas pessoas ainda interpretam problemas emocionais como fraqueza, falta de esforço ou até ausência de fé, quando, na realidade, tratam-se de condições que exigem avaliação técnica, tratamento adequado e acompanhamento especializado.
“Infelizmente, muito pouco é conhecido quando a gente fala de informações verídicas, pautadas na ciência. Ainda existe um tabu muito grande em relação à saúde mental e muitas pessoas sofrem sem buscar ajuda”, afirmou Rita Borges.
Ela ressaltou que o sofrimento psicológico costuma ser silencioso e frequentemente só recebe atenção quando já compromete significativamente a qualidade de vida, o desempenho profissional, os relacionamentos e a rotina da pessoa.
A experiência pessoal transformou a carreira
Durante a entrevista, Rita Borges contou que sua atuação clínica foi motivada por uma experiência vivida enquanto trabalhava na área de Recursos Humanos.
Após desenvolver burnout, precisou interromper sua carreira corporativa para priorizar a recuperação da própria saúde mental. O processo de tratamento levou meses e despertou nela o interesse em aprofundar os estudos sobre transtornos emocionais e atendimento psicológico.
Hoje, sua atuação é direcionada principalmente ao tratamento de ansiedade, transtornos de personalidade, bipolaridade e transições de carreira, utilizando sua vivência anterior como diferencial para compreender os desafios enfrentados pelos trabalhadores.
Como identificar quando o sofrimento exige ajuda
Um dos pontos centrais da entrevista foi a diferença entre dificuldades normais da vida e um quadro de adoecimento psicológico.
Segundo Rita Borges, emoções como tristeza, medo, frustração e ansiedade fazem parte da experiência humana. O problema surge quando esses sintomas tornam-se persistentes, intensos e passam a comprometer atividades cotidianas.
Entre os principais sinais de alerta estão:
dificuldade para dormir;
cansaço constante;
perda de interesse por atividades antes prazerosas;
alterações importantes de peso;
procrastinação frequente;
isolamento social;
irritabilidade persistente;
uso crescente de álcool, cigarro ou medicamentos sem orientação médica;
sensação constante de incapacidade;
prejuízo nas atividades profissionais e familiares.
“O principal critério que nós utilizamos para identificar o adoecimento é que esse sofrimento seja permanente, persistente e comece a influenciar a rotina da pessoa.”
Ansiedade e burnout não são a mesma coisa
Outro tema abordado foi a diferença entre ansiedade e burnout.
Rita explicou que a ansiedade é uma emoção natural do ser humano, relacionada aos mecanismos de sobrevivência. Porém, quando excessiva, pode transformar-se em transtorno.
Já o burnout está diretamente ligado ao contexto ocupacional e caracteriza-se por um estado de esgotamento físico, emocional e mental provocado pelo estresse crônico relacionado ao trabalho.
Segundo ela, pessoas com burnout costumam apresentar:
perda de propósito;
sensação de ineficiência;
exaustão intensa;
desmotivação;
dificuldade de concentração;
redução significativa da produtividade.
Ela destacou que o tratamento envolve tanto acompanhamento médico quanto psicoterapia, já que a medicação ajuda na estabilização dos sintomas, enquanto a terapia trabalha padrões de pensamento e comportamento.
O papel das empresas na prevenção
Durante a entrevista, Rita Borges afirmou que a promoção da saúde mental deve fazer parte da cultura organizacional e não apenas de campanhas pontuais.
Na avaliação da psicóloga, empresas precisam investir em programas permanentes voltados ao desenvolvimento de lideranças, prevenção ao assédio moral, educação emocional e construção de ambientes psicologicamente seguros.
Ela defende que líderes preparados conseguem identificar sinais precoces de adoecimento e contribuir para uma cultura mais saudável, reduzindo afastamentos e melhorando o clima organizacional.
“A saúde do colaborador começa na liderança. Se quem lidera não consegue cuidar da própria saúde mental, dificilmente conseguirá criar um ambiente saudável para a equipe.”
Segundo a especialista, palestras isoladas em datas específicas são importantes, mas insuficientes diante da complexidade do problema.
Bipolaridade e borderline: quais são as diferenças?
A psicóloga também esclareceu uma dúvida bastante comum: a diferença entre transtorno afetivo bipolar e transtorno de personalidade borderline.
Ela explicou que o transtorno bipolar possui importante componente biológico e neurológico, caracterizando-se por episódios de depressão alternados com períodos de mania ou hipomania, nos quais há aumento significativo de energia, produtividade, impulsividade e redução da necessidade de sono.
Esses episódios costumam durar dias ou semanas, dependendo do tipo de transtorno.
Já o transtorno de personalidade borderline apresenta uma instabilidade emocional muito mais frequente, podendo ocorrer mudanças intensas de humor ao longo do mesmo dia.
Segundo Rita Borges, pessoas com borderline apresentam elevada sensibilidade emocional, dificuldades na regulação das emoções, medo intenso de abandono, impulsividade e prejuízos importantes nas relações interpessoais.
Ela alertou ainda que muitos estigmas associados ao transtorno não correspondem ao conhecimento científico atual e acabam aumentando o preconceito enfrentado pelos pacientes.
Os riscos do autodiagnóstico pela internet
Outro alerta importante feito durante o programa diz respeito ao crescimento do autodiagnóstico realizado por meio das redes sociais e de ferramentas de inteligência artificial.
Segundo Rita Borges, conteúdos curtos publicados em plataformas digitais frequentemente simplificam transtornos complexos e podem induzir interpretações equivocadas.
Ela reforçou que o diagnóstico psicológico ou psiquiátrico não serve para rotular pessoas, mas para direcionar protocolos terapêuticos específicos e individualizados.
Cada transtorno possui formas distintas de tratamento, envolvendo diferentes abordagens psicoterápicas e, quando necessário, medicação prescrita por profissionais habilitados.
Buscar ajuda é um ato de cuidado
Na mensagem final da entrevista, Rita Borges incentivou o público a refletir sobre onde está investindo seu tempo, sua energia e sua qualidade de vida.
Ela destacou que cuidar da saúde mental significa investir na própria capacidade de manter relacionamentos saudáveis, trabalhar com equilíbrio e enfrentar os desafios cotidianos de maneira mais consciente.
Para a psicóloga, a dor emocional não desaparece sozinha e adiar o tratamento apenas prolonga o sofrimento. Buscar ajuda especializada representa um passo importante para recuperar qualidade de vida e construir novas formas de lidar com as dificuldades.
Perguntas frequentes
O que caracteriza um problema de saúde mental?
Quando sintomas emocionais tornam-se persistentes, intensos e passam a comprometer a rotina, o trabalho, os relacionamentos e a qualidade de vida.
Burnout é igual à ansiedade?
Não. A ansiedade pode fazer parte do burnout, mas o burnout está relacionado especificamente ao esgotamento provocado pelo trabalho.
Qual a diferença entre bipolaridade e borderline?
Na bipolaridade existem episódios de alteração do humor que duram dias ou semanas. No borderline, a instabilidade emocional costuma ser muito mais frequente e intensa ao longo do dia.
É seguro fazer autodiagnóstico pela internet?
Não. Apenas profissionais qualificados podem realizar avaliação clínica adequada e indicar o tratamento mais apropriado.
Quando procurar ajuda profissional?
Sempre que emoções, pensamentos ou comportamentos começarem a prejudicar a rotina, o desempenho profissional, a vida familiar ou os relacionamentos.
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Fonte: News Rondônia