O Brasil sempre abriu suas portas para investimentos estrangeiros.
Por Jayme Rizolli
Empresas de diversos países instalaram suas fábricas, geraram empregos, trouxeram tecnologia e passaram a fazer parte do desenvolvimento nacional. Isso é saudável para qualquer economia.
Mas existe uma condição inegociável.
Quem investe no Brasil deve respeitar o Brasil.
As denúncias surgidas na fábrica da Midea, em Pouso Alegre, Minas Gerais, ultrapassam uma simples discussão trabalhista. Segundo relatos do sindicato, um trabalhador brasileiro do setor de qualidade teria sido agredido fisicamente por um gerente chinês com socos e golpes utilizando uma borracha de vedação, objeto que representantes dos trabalhadores compararam simbolicamente a um chicote.
A reação foi imediata.
Cerca de 1.200 trabalhadores cruzaram os braços e interromperam a produção em sinal de protesto.
A empresa afastou o gestor denunciado enquanto a investigação acontece.
O interessante é que essas empresas são trazidas ao Brasil com impostos e taxas mínimas entendendo seus administradores que podem tratar os brasileiros como tratam seus empregados no exterior.
Se os fatos forem integralmente confirmados, estaremos diante de algo que nenhum brasileiro pode aceitar.
Nenhum investimento estrangeiro compra o direito de humilhar trabalhadores brasileiros.
Nenhum cargo de chefia autoriza violência.
Nenhuma meta de produção justifica agressão física.
O respeito à dignidade humana não é um benefício concedido pela empresa. É um dever.
A história nos ensina que ambientes de trabalho marcados pelo medo costumam produzir silêncio antes de produzirem denúncias.
Em diversos momentos da história industrial mundial surgiram relatos de assédio, violência, jornadas abusivas e humilhações. Foi assim nas primeiras décadas da Revolução Industrial, foi assim em inúmeras fábricas asiáticas denunciadas por organizações internacionais e também em diversos episódios registrados no próprio Brasil.
Em 2018, trabalhadores da fábrica Jasic, na China, ganharam repercussão internacional ao denunciar más condições de trabalho e dificuldades para exercer direitos sindicais.
O episódio demonstrou que conflitos trabalhistas não são exclusividade de um país ou de uma cultura, mas surgem sempre que a dignidade do trabalhador deixa de ser prioridade.
O Brasil possui dignidade e o respeito aos trabalhadores é algo indiscutível e as leis existem e devem ser cumpridas.
Elas existem justamente para impedir que relações de trabalho regressem a práticas incompatíveis com uma sociedade democrática.
Independentemente da nacionalidade do empregador, a lei brasileira precisa prevalecer dentro do território nacional.
Empresas estrangeiras são bem-vindas. Tecnologia é bem-vinda. Investimentos são bem-vindos.
Mas nenhum brasileiro deve sair de casa para trabalhar e voltar para casa carregando marcas de humilhação ou violência.
Se a investigação confirmar as denúncias, a resposta das autoridades deverá ser firme, rápida e exemplar.
Porque o trabalhador brasileiro vende sua força de trabalho.
Jamais sua dignidade.
Jayme Rizolli
Jornalista.
Fonte: Jornal da Cidade Online
Fonte: Tribuna Popular