As mudanças climáticas têm alterado radicalmente o cotidiano e a identidade de comunidades quilombolas em todo o Brasil. Durante o Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas, realizado no Gama (DF) até este domingo (14), lideranças de diferentes regiões expuseram como a alternância entre secas severas e temporais tem comprometido a agricultura familiar, a segurança alimentar e a preservação de tradições ancestrais que sustentam esses povos.
Impactos nos territórios
Na comunidade Nova Esperança, em Baraúna (RN), a agricultora Sueli Bessa relata que a escassez hídrica tornou a produção de frutas, como a goiaba, cada vez mais difícil. A falta de infraestrutura básica, como estradas asfaltadas e abastecimento regular de água, agrava a situação, forçando jovens a abandonar o campo em busca de emprego nas zonas urbanas. Cenário semelhante ocorre em outras áreas do país, onde o cultivo da mandioca e do marmelo enfrenta ameaças não apenas pelo clima, mas também pela pressão de grandes monoculturas e o uso de agrotóxicos em propriedades vizinhas.
Livro registra resistência
Para sistematizar essas denúncias e estratégias de sobrevivência, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou a obra Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima. A pesquisa, liderada pela agrônoma Fran Paula, revela que as mulheres são as principais protagonistas na vigilância ambiental e na resistência contra o avanço de grandes empreendimentos como usinas eólicas, mineração e exploração de petróleo que invadem territórios tradicionalmente ocupados.
O estudo aponta que não existe justiça climática sem a garantia de terras. A falta de titulação definitiva coloca comunidades, como a Mesquita (GO), em constante estado de vulnerabilidade, deixando-as expostas à grilagem e à apropriação indevida por parte de fazendeiros. “As mulheres são as primeiras a sentir os efeitos da crise e as últimas a saírem do território”, afirma a pesquisadora.
Luta por direitos
O engajamento das novas gerações é um dos pilares da resistência. Estudantes como Suelene Ribeiro, de 21 anos, participam ativamente da articulação comunitária, buscando formação superior para retornar aos territórios e fortalecer a luta por direitos e autonomia. Enquanto aguardam a celeridade nos processos de regularização fundiária, as mulheres quilombolas seguem construindo estratégias locais de conservação, reafirmando que a preservação do meio ambiente é indissociável da continuidade de suas identidades culturais e modos de vida.
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Fonte: News Rondônia