O comportamento suicida está associado a fatores como trauma na infância, impulsividade e sentimentos de desesperança. Essa é a principal conclusão de um estudo inédito realizado por pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari (Univates), no Rio Grande do Sul, região que apresenta alguns dos índices mais elevados de mortalidade por suicídio no Brasil.
A pesquisa, publicada na revista científica Cuadernos de Educación y Desarrollo, analisou 170 participantes, sendo 119 pessoas com histórico de tentativa de suicídio ou ideação suicida e 51 indivíduos sem registros desse comportamento. O objetivo foi identificar características psicopatológicas relacionadas ao risco suicida na população do Vale do Taquari.
O trabalho foi desenvolvido durante o doutorado da pesquisadora Janaína Chiogna Padilha, vinculada aos Programas de Pós-Graduação em Biotecnologia e Ciências Médicas da Univates, com orientação dos professores Verônica Contini e Flávio Milman Shansis.
Região concentra altos índices de suicídio
Segundo dados do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), o Rio Grande do Sul lidera as estatísticas nacionais de mortalidade por suicídio, registrando média anual de 13,34 óbitos por 100 mil habitantes.
Dentro desse cenário, o Vale do Taquari apresenta indicadores ainda mais preocupantes, tornando-se uma das áreas com maior incidência do fenômeno no país. Mais da metade dos registros da região ocorre em atendimentos de alta complexidade, como emergências e hospitais.
Para os pesquisadores, o cenário reforça a necessidade de ampliar estratégias de prevenção, identificação precoce e acompanhamento de pessoas em situação de vulnerabilidade emocional.
Como o estudo foi realizado
A pesquisa adotou o modelo caso-controle, considerado adequado para investigar fenômenos complexos de saúde.
Os participantes do grupo de casos foram recrutados em unidades de emergência conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) em Lajeado (RS). Já o grupo controle foi formado por moradores da mesma região sem histórico de atendimento relacionado a tentativas de suicídio.
Todos responderam a instrumentos internacionalmente validados que avaliam impulsividade, desesperança e experiências traumáticas na infância.
Desesperança aparece como forte indicador de risco
Um dos principais resultados identificados foi a relação entre altos níveis de desesperança e comportamento suicida.
A média de pontuação da Escala de Desesperança de Beck foi significativamente maior entre os participantes com tentativa ou ideação suicida. Enquanto a maioria do grupo controle apresentou níveis mínimos de desesperança, quase um quarto dos indivíduos com comportamento suicida registrou índices classificados como graves.
Os pesquisadores destacam que a desesperança representa a percepção de que não existem perspectivas positivas para o futuro, fator frequentemente associado ao aumento do risco suicida.
Impulsividade emocional também se destacou
A análise da impulsividade revelou diferenças importantes entre os grupos.
Embora a impulsividade total não tenha apresentado variação estatisticamente significativa, os participantes com comportamento suicida registraram níveis mais elevados de impulsividade motora e impulsividade atencional.
Essas características estão relacionadas à tendência de agir sem reflexão prévia e à dificuldade de controlar pensamentos intrusivos em momentos de crise emocional.
Os autores observam que estudos anteriores já apontavam a impulsividade emocional como um dos elementos mais associados às tentativas de suicídio.
Trauma infantil apresenta forte associação
Outro resultado relevante foi a identificação de maior frequência de experiências traumáticas durante a infância entre os participantes com tentativa ou ideação suicida.
Os pesquisadores encontraram índices mais elevados de abuso sexual, abuso físico, abuso emocional e negligência física nesse grupo.
Segundo a literatura científica, experiências adversas vividas nos primeiros anos de vida podem provocar alterações duradouras na saúde mental, aumentando a vulnerabilidade a transtornos psiquiátricos e ao comportamento suicida ao longo da vida.
Contribuições para políticas públicas
Os autores afirmam que a combinação de impulsividade, desesperança e traumas infantis forma um conjunto de fatores que pode ajudar profissionais de saúde a identificar pessoas com maior risco de comportamento suicida.
As evidências produzidas pela pesquisa poderão contribuir para o aprimoramento de protocolos de triagem em hospitais e serviços de emergência, além de subsidiar programas de prevenção e promoção da saúde mental.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que novos estudos são necessários para ampliar o conhecimento sobre o tema e aprofundar a compreensão dos fatores envolvidos no comportamento suicida.
Onde buscar ajuda
Pessoas que estejam enfrentando sofrimento emocional podem procurar apoio gratuito e sigiloso por meio do Centro de Valorização da Vida (CVV), disponível 24 horas por dia pelo telefone 188.
Também é possível buscar atendimento em unidades de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou serviços de emergência em situações de crise.
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Fonte: News Rondônia