O dia 25 de maio marca o Dia da África, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em alusão à criação da Organização da Unidade Africana, em 1963. Para o Brasil, a celebração convida a uma reflexão sobre a profunda presença das línguas banto e iorubá no cotidiano. O vocabulário utilizado diariamente pelos brasileiros, da culinária às relações familiares, carrega marcas de um passado de resistência que atravessou séculos e definiu traços fundamentais da identidade nacional.
Pesquisadores apontam que a intensa presença de mulheres escravizadas no ambiente doméstico desde o século 19 foi determinante para a incorporação de termos carinhosos no português. Palavras como “caçula”, “cafuné” e “dengo” ilustram essa relação íntima e cotidiana. Já o filólogo Ricardo Cavaliere, da Academia Brasileira de Letras, destaca que o português do Brasil adaptou foneticamente centenas de termos, mantendo, em grande parte, os significados originais trazidos pelos fluxos migratórios forçados a partir da segunda metade do século 16.
Diversidade de influências e ressignificação
As línguas quimbundo, umbundo e quicongo estão entre as que mais forneceram vocabulário para o português falado no Brasil. Termos como “moleque”, “bagunça” e “samba” este último sofrendo alteração semântica ao passar de um tipo de dança para um gênero musical são exemplos claros dessa raiz. O pesquisador angolano Gio Cattuco reforça essa conexão ao mapear termos como “muvuca”, derivada de mvuca (aglomeração), e “cambada”, oriunda de dikamba (amigo ou companheiro), que hoje compõem o vernáculo brasileiro com total naturalidade.
Para o professor de ciências humanas Augusto Ribeiro, a manutenção dessas palavras é uma forma viva de resistência. Segundo ele, os brasileiros falam “africano” todos os dias sem perceber, preservando a cultura negra no modo de se expressar. O legado, porém, vai além da linguística. O professor Gilvan Muller de Oliveira defende que o Dia da África deve incentivar uma relação mais colaborativa e menos colonial com o continente, superando a visão restrita ao passado da escravidão.
Educação como eixo de integração
Com o objetivo de transformar esse legado cultural em oportunidades de intercâmbio científico e educacional, o Ministério da Educação (MEC) promove a partir desta segunda-feira (25), em Brasília, o 1º Fórum de Reitores Brasil-África. O evento busca fortalecer a educação superior como pilar de uma relação bilateral moderna, conectando o Brasil contemporâneo à realidade atual das nações africanas e valorizando, no presente, a ancestralidade que define o jeito de falar e ser do povo brasileiro.
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Fonte: News Rondônia