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Racismo sem palavras: desembargadora Adenir Carruesco denuncia preconceito em supermercado

O relato feito pela desembargadora Adenir Carruesco, do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-23), após uma situação vivida dentro de um supermercado provocou indignação nas redes sociais e reacendeu um debate urgente: o racismo estrutural ainda determina como corpos negros são vistos na sociedade brasileira.
A magistrada contou que, durante uma caminhada matinal no domingo, 17 de maio de 2026, decidiu entrar em um supermercado. Sem a toga, sem símbolos do cargo e vestida de forma comum, passou a caminhar entre as gôndolas quando foi abordada de maneira insistente por uma mulher que pedia informações sobre produtos e localização de itens.
Segundo Adenir Carruesco, a mulher acreditava naturalmente que ela era funcionária do estabelecimento. E foi justamente essa “naturalidade” que mais chamou atenção no relato.

“Para ela, era lógico que eu trabalhava ali e que eu estava ali para servi-la”, afirmou.

A desembargadora fez questão de destacar que não acredita que a mulher tenha agido com intenção explícita de ofender. Porém, explicou que o episódio revela algo ainda mais profundo e perigoso: a lógica racista que o Brasil normalizou ao longo da história.

“O lugar natural do preto é o serviço”, declarou em um dos trechos mais fortes do relato.

Racismo estrutural e invisibilidade nos espaços de poder
A fala da desembargadora Adenir Carruesco rapidamente ganhou repercussão justamente por expor uma realidade frequentemente silenciada. Mesmo ocupando um dos cargos mais altos do Judiciário, ela afirma que sua imagem continua sendo associada automaticamente a posições de subalternidade.
Para ela, o problema não está apenas na atitude individual da mulher no supermercado, mas na estrutura social que condiciona a população a enxergar pessoas negras longe dos espaços de comando, liderança e poder.

“A lógica diz: preto não ocupa espaços de poder. Preto não é juiz, preto não é desembargador”, afirmou.

A magistrada também chamou atenção para a ausência histórica de pessoas negras nos tribunais superiores do país, especialmente mulheres negras. O episódio escancara como o racismo estrutural atua de maneira silenciosa, cotidiana e muitas vezes disfarçada de “confusão” ou “engano”.
“Sem a toga, sou apenas mais um corpo preto”
Uma das partes mais impactantes do relato foi quando Adenir Carruesco afirmou que, sem a toga, deixa de ser vista como autoridade e passa a ser percebida apenas como “mais um corpo preto”.
A frase gerou forte repercussão justamente por traduzir a experiência de milhares de pessoas negras no Brasil, que enfrentam diariamente abordagens, suspeitas, julgamentos e estereótipos baseados exclusivamente na aparência.
Especialistas em direitos humanos apontam que situações como essa são reflexos diretos do racismo estrutural, conceito que descreve a forma como desigualdades raciais estão enraizadas nas instituições, na cultura e no comportamento social.
Racismo é crime
O caso também reforça a importância de lembrar que racismo é crime no Brasil. A Lei nº 7.716/1989 prevê punições para práticas discriminatórias motivadas por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Embora a própria desembargadora tenha afirmado que a mulher não agiu com intenção consciente de ofensa, o episódio abriu espaço para uma discussão fundamental sobre preconceitos internalizados e comportamentos reproduzidos automaticamente pela sociedade.
O debate ultrapassa a atitude individual e aponta para a necessidade de mudanças culturais profundas, principalmente na forma como o país enxerga pessoas negras em cargos de liderança, autoridade e destaque profissional.
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Fonte: News Rondônia

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