Um estudo conduzido pela Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, trouxe novos dados para o debate sobre a chamada “masculinidade tóxica”. Ao analisar o comportamento de mais de 15 mil homens, os pesquisadores descobriram que 89,2% dos entrevistados apresentam níveis baixos ou moderados de traços considerados problemáticos. O levantamento dividiu os participantes em cinco perfis, revelando que o grupo “atóxico” é o maior de todos, representando 35% do total, enquanto o perfil “tóxico hostil” que combina agressividade e misoginia atingiu apenas 3,2%.
A pesquisa avaliou indicadores fundamentais como a valorização da dominação, a dificuldade em expressar vulnerabilidade e a crença de que mulheres buscam controlar os homens. Deborah Hill Cone, autora do estudo, defende que rotular os homens de forma ampla pode não ser útil para quem deseja mudanças reais de comportamento. No entanto, o estudo também identificou grupos intermediários, como os “tóxicos benevolentes”, que mantêm visões sexistas tradicionais sob uma fachada de proteção e paternalismo.
O abismo entre a Nova Zelândia e o Brasil
Apesar dos números encorajadores na Oceania, especialistas ouvidos pelo portal reforçam que os dados não podem ser aplicados diretamente à realidade brasileira. Ana Maria Bercht, doutora em psicologia e pesquisadora de gênero, explica que o Brasil ocupa a 70ª posição em paridade de gênero, enquanto a Nova Zelândia figura no topo do ranking. No cenário nacional, a violência contra a mulher é tratada como uma epidemia, e a percepção de igualdade ainda enfrenta forte resistência cultural.
Na Nova Zelândia, políticas públicas consolidadas garantiram que mulheres fossem vistas como indivíduos independentes há décadas. Já no Brasil, pesquisas da Ipsos mostram que 70% dos cidadãos acham que se exige demais dos homens no apoio à igualdade, superando a média global de 46%. Além disso, cerca de 16% dos homens brasileiros ainda acreditam que o cuidado direto com os filhos pode afetar a percepção de sua masculinidade.
Para os especialistas, o histórico tardio de conquistas femininas no Brasil ainda reflete na forma como a mulher é vista na sociedade. Enquanto o Senado brasileiro discute projetos de lei para equiparar a misoginia ao racismo, o avanço das pautas de proteção feminina ainda encontra barreiras políticas na Câmara. A conclusão dos pesquisadores é que, embora a maioria dos homens possa não ser inerentemente hostil, o ambiente social e a falta de responsabilização masculina continuam sendo obstáculos para a segurança das mulheres no país.
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Fonte: News Rondônia