Aprender a língua portuguesa foi a estratégia de sobrevivência adotada pelo líder indígena Nahu Kuikuro na década de 40 para proteger a aldeia Ipatsé. Segundo o escritor Yamaluí Kuikuro Mehinaku, autor do livro “Dono das palavras: a história do meu avô”, Nahu foi o pioneiro no domínio do idioma no Alto Xingu, utilizando o conhecimento para mediar conflitos e barrar interferências externas. A obra, que resgata essa trajetória política e cultural, foi a vencedora do Prêmio da Biblioteca Nacional de 2025 na categoria Histórias de Tradição Oral.
Nesta semana, Yamaluí participa do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília, evento que reúne mais de 7 mil lideranças indígenas para cobrar demarcações e visibilidade para as causas dos povos tradicionais. O escritor destaca que o domínio do português permitiu ao avô atuar como contato de confiança dos irmãos Villas-Boas, participando ativamente das articulações para a fundação do Parque Indígena do Xingu em 1961. Nahu, que faleceu em 2005 aos 104 anos, tornou-se um poliglota capaz de dialogar com as 16 etnias da região.
O biógrafo explica que Nahu era órfão e aprendeu o idioma inicialmente por curiosidade e necessidade de negociação com os brancos. Apelidado de “dono das palavras” por sua função de tradutor, ele conseguiu influenciar decisões políticas cruciais, chegando a se encontrar com o marechal Cândido Rondon e diversos presidentes da República. Para Yamaluí, transformar essa memória oral em documento escrito é uma forma de garantir que a história não seja esquecida ou desacreditada por quem não é indígena.
A publicação do livro pela Editora Todavia busca também preencher uma lacuna no sistema educacional brasileiro. Yamaluí alerta que as escolas, mesmo as que atendem comunidades indígenas, ainda priorizam a cultura não indígena, deixando heróis locais como Nahu de fora dos currículos. Ao registrar a vida do avô, o autor espera inspirar as novas gerações a utilizarem o estudo e a documentação como ferramentas de proteção do território e da ancestralidade, honrando o legado do “hiper-avô-diplomata”.
Veja mais notícias
Fonte: News Rondônia