Um novo escândalo político expõe o município de Guajará-Mirim e acende um alerta sobre possíveis abusos de poder dentro da Câmara Municipal. Na mesma semana em que a Justiça de Rondônia condenou um vereador por prática de corrupção, o Legislativo local protagonizou mais um episódio polêmico: o afastamento da vereadora Cordélia Santana, única mulher entre os onze parlamentares da Casa.
Eleita nas eleições de 2024 com 413 votos pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Cordélia conquistou uma vaga no Legislativo municipal representando uma parcela do eleitorado local, o que agora amplia a repercussão política de seu afastamento.
A decisão foi tomada na quarta-feira (08), em uma votação apertada de 6 votos a 4, e teve como estopim uma publicação em que a parlamentar teria mencionado um suposto esquema de propina envolvendo integrantes do Legislativo.
Na postagem, Santana sugeriu que vereadores estariam ligados ao recebimento de cerca de R$ 50 mil em vantagens indevidas. No entanto, negou qualquer responsabilização, alegando não ter feito acusações diretas e classificando a repercussão como ‘fake news’. A medida de afastamento foi baseada em uma representação apresentada pelo vereador Joaquim Pinheiro (PP), presidente da Comissão de Ética, que considerou o conteúdo divulgado suficiente para justificar a punição.
A vereadora Cordélia apresentou uma nota de esclarecimento, na qual reitera que sua fala foi desvirtuada e retirada de contexto. “Quero esclarecer um fato relacionado a essa ‘fake news’ que está circulando, pois sempre pautei minha atuação pela transparência e não tenho motivo para faltar com a verdade. Foi divulgado um print de uma conversa em grupo, na qual uma pessoa me relatou que estariam dizendo que apenas eu e outro vereador não teríamos recebido R$ 50 mil, supostamente para votar a favor da terceirização. Na ocasião, deixei claro que isso não era verdade. Em seguida, fiz um comentário no grupo em tom de brincadeira, como mostra o próprio print, inclusive com risadas, justamente por saber que tal situação nunca existiu. Também mencionei que ‘o povo da fofoca sabe de coisas que nem eu sei’, reforçando que eu sequer tinha conhecimento de algo dessa natureza. Diante disso, quero deixar bem claro que estão utilizando apenas parte da conversa para tentar me prejudicar, criando a falsa impressão de que estou acusando alguém, o que não procede. Jamais faria acusações sem provas, ainda mais contra meus colegas parlamentares, pois prezo pela seriedade e respeito no exercício do meu mandato”, explicou.
Para críticos e observadores políticos, o afastamento pode configurar retaliação, sobretudo por atingir a única mulher do parlamento local, justamente após a repercussão de denúncias sensíveis. “Me parece que as decisões ali foram tomadas de maneira açodada. A Câmara de Vereadores de Guajará-Mirim é composta por 13 parlamentares e, pasmem, a representatividade feminina se resume a uma única mulher justamente a que foi afastada. A medida decorre de uma fala que está sendo atribuída a ela e que teria gerado desgaste à imagem da Casa”, afirmou o advogado Edilei Souza.
A crise institucional se agrava diante de um elemento ainda mais controverso: a participação, na votação que decidiu pelo afastamento, de um vereador recentemente condenado por corrupção pelo Tribunal de Justiça da Comarca de Guajará-Mirim. O fato lança dúvidas sobre a legitimidade do processo, fragiliza ainda mais a credibilidade da decisão e reforça a percepção de possível perseguição política dentro do próprio parlamento.
Em entrevista à Rádio Rondônia na quarta, o advogado Edirlei Souza foi categórico ao questionar a legalidade da decisão. “Em Rondônia, já vimos câmaras ultrapassarem os limites legais e depois serem corrigidas pelo Judiciário. Pelo que se observa, essa decisão não seguiu o caminho da legalidade”, afirmou.
Segundo ele, o afastamento de um parlamentar exige base sólida. “Não se afasta um representante eleito sem provas concretas e sem que haja comprometimento real do funcionamento da Casa Legislativa”, destacou.
Enquanto isso, um ponto chama atenção: até o momento, não há confirmação de qualquer investigação formal sobre o suposto esquema de propina que deu origem a toda a crise.
Diante desse cenário, aumenta a pressão sobre o Ministério Público para uma apuração rigorosa dos fatos. O episódio não apenas pode ter desdobramentos na esfera judicial, como também tende a ampliar o desgaste institucional de uma Câmara já fragilizada por denúncias recorrentes, decisões controversas e, agora, sob a sombra de possíveis práticas de silenciamento político, especialmente ao atingir a única representante feminina do parlamento.
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Fonte: News Rondônia