Nesta terça-feira, 7 de abril, o Massacre de Realengo completa 15 anos, consolidando-se como um marco trágico que alterou as políticas de segurança e convivência nas escolas brasileiras. Em 2011, um ex-aluno invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, assassinando 12 adolescentes 10 meninas e 2 meninos antes de cometer suicídio. Embora o bullying tenha sido a explicação central adotada por anos, pesquisadoras e ativistas feministas reforçam agora que a misoginia foi o motor determinante para a escolha das vítimas e a execução do ataque, um aspecto que teria sido subestimado nas investigações iniciais.
A disparidade de gênero entre os mortos é o principal indício apontado por especialistas como a pesquisadora Lola Aronovich. Testemunhas da época relataram que o assassino direcionava disparos fatais contra as meninas, enquanto mirava nos membros dos meninos para feri-los. A análise de vídeos e cartas deixados pelo criminoso revela sua ligação com comunidades de “celibatários involuntários” (incels), espaços virtuais que fomentam o ressentimento contra mulheres. Esse padrão de ódio tem se repetido: um levantamento da Unicamp identificou que, dos 40 ataques a escolas no Brasil entre 2001 e 2024, todos foram cometidos por homens, frequentemente radicalizados em fóruns extremistas.
A doutora em educação Cleo Garcia destaca que esses crimes são multifatoriais, envolvendo desde a baixa tolerância à frustração individual até influências socioculturais que pregam uma masculinidade agressiva. Segundo a pesquisadora, a internet atua como um catalisador de raiva para jovens que se sentem deslocados, oferecendo um senso de pertencimento baseado na destruição do outro. Garcia ressalta que o aumento expressivo de ataques nos últimos dois anos 25 casos entre 2022 e 2024 evidencia a urgência de monitorar como o discurso de ódio circula em plataformas digitais e como ele molda o comportamento de adolescentes.
Para enfrentar o problema, educadores e ativistas defendem uma ação conjunta entre segurança pública, famílias e o setor de tecnologia. As soluções propostas incluem o fortalecimento de canais de diálogo nas escolas, maior investimento em saúde mental e a regulação rigorosa de redes sociais que lucram com algoritmos de radicalização. No dia em que se celebra o Dia Nacional de Combate ao Bullying, instituído em memória das vítimas de Realengo, o debate se expande para a necessidade de desconstruir a masculinidade tóxica e garantir que o ambiente escolar seja, acima de tudo, um espaço de acolhimento e segurança para todos os gêneros.
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Fonte: News Rondônia