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Desigualdade no saneamento atinge principalmente mulheres e população negra no Brasil

O Brasil apresenta um cenário de contrastes profundos no cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 da ONU, que prevê água e saneamento para todos até 2030. Embora 98,1% da população nacional tenha tido acesso a água potável em 2023, os dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) mostram que o índice mascara exclusões críticas: o acesso cai para 79,4% na Região Norte e 81,9% no Nordeste. No recorte racial, a população não branca concentra os menores níveis de atendimento, evidenciando que o déficit de infraestrutura tem cor e geografia definidas.
A crise é ainda mais acentuada no esgotamento sanitário. Apenas 59,9% dos brasileiros contam com esgoto seguro, índice que despenca para 39,6% no Norte. Como consequência, quase metade dos resíduos gerados no país (42,4%) é descartada sem tratamento, impactando a segurança hídrica e a saúde pública. Segundo Luana Pretto, presidente do Instituto Trata Brasil, esse déficit afeta diretamente o futuro das novas gerações: crianças com acesso a saneamento estudam, em média, 9,5 anos, enquanto as que vivem sem o serviço estudam apenas 7,5 anos uma defasagem de dois anos que limita a renda e o ingresso no ensino superior.
O Impacto Desproporcional sobre Mulheres e Meninas
A ausência de serviços básicos sobrecarrega sistematicamente as mulheres, que assumem a responsabilidade primária pela coleta de água e pelos cuidados domésticos. De acordo com a ANA, essa carga de trabalho não remunerado retira mulheres e meninas da escola e do mercado de trabalho, além de expô-las a riscos de violência em trajetos vulneráveis. A ecopedagoga Vera Lessa Catalão, da UnB, reforça que a gestão da água é uma realidade cotidiana feminina, sendo elas as principais articuladoras pelo direito ao recurso para higiene e saúde familiar.
A convergência entre falta de saneamento, baixa escolaridade e renda média reduzida atinge majoritariamente pessoas pretas, pardas, indígenas e jovens de até 20 anos. Para os especialistas, a universalização do saneamento não é apenas uma meta de engenharia, mas uma etapa obrigatória para a justiça social e a equidade de gênero. Sem o fortalecimento da gestão de recursos hídricos e a adaptação às mudanças climáticas, o ciclo de desigualdade tende a se perpetuar, mantendo grupos historicamente excluídos à margem do desenvolvimento econômico.
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Fonte: News Rondônia

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